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Histórias de encontros e desencontros.


Sábado, Novembro 29, 2003
 
vamos logo ao que interessa....



 





Quinta-feira, Novembro 27, 2003
 





Segunda-feira, Novembro 24, 2003
 


Estranho no ninho
Ele estava sentado na calçada quando eu cheguei.
"Preciso da tua ajuda", ele me disse.
"Tem uma mulher dormindo na minha cama e eu não sei o nome dela".
E lá fui eu, cumprir minha missão. Entrei no apartamente, ele atrás de mim. Vi o corpo dela estendido na cama e fiquei sem saber se deveria acordá-la. Preferi esperar um pouco e sugeri que a gente fizesse algum barulho. No fundo, estava achando aquela situação totalmente surreal. Só mesmo ele, só mesmo ele!
Uma semana depois, exatamente uma semana depois, o telefone me acorda. Estou em casa. Como cheguei em casa? Estico a mão para atender. A cabeça dói. Na boca, o gosto de ressaca. Ele do outro lado da linha.
"Estou passando aí pra te buscar".
Uma mão passa pelas minhas costas. Desligo o telefone. Sinto um corpo se grudar ao meu. As mãos, agora, passando sobre meus seios. Me viro. Sou um grande ponto de interrogação. Ele sussurra no meu ouvido. Diz que passaria o dia inteiro ali, deitado ao meu lado. Tento lembrar da noite anterior. A festa de sempre, as pessoas de sempre. O menino que veio falar comigo no final da noite. É ele... Sim, o menino. Agora lembro. Mas não lembro muito. Tenho que sair.
"Tenho que sair".
Ele me olhando.
"O telefone. Era um amigo. Vamos fazer um churrasco".
Ele me olhando.
"Ok, ok. Tu queres ir?"
Ele sorri. Estou perdida. Meus amigos chegam. Não apresento. Não sei o nome dele. Mas vamos juntos, no carro dele. E assim passa o dia, surge a noite. Ele me deixa em casa. Pede meu telefone. Eu dou. Não peço o dele. Não sou do tipo que pede telefone. O nome dele? Ainda não sei. Ele nunca ligou.





Quinta-feira, Novembro 20, 2003
 
Este post vai sob medida pr'este blog: puro encontro e desencontro! Escrevo-o sentado ao sol, sob um Sul frio que vem em rajadas, tomando um sorvete de nata com pedaços de morango muito do decente, e a trilha sonora é aquele disco fantástico que o Piazzola gravou com o Gerry Mulligan, meio tango, meio cool jazz.

Chego de volta ao lugar que literalmente me viu dar os primeiros passos. A primeira ligação é pra Ela. Deixei-A há uns dois meses, quando retornei a POA para outros trampos, e é verdade que não agüei a plantinha da nossa relação como devia: nunca gostei de falar ao telefone e fui negligente em manter o mínimo de correspondência eletrônica. Deixei nossa plantinha ao deus-dará e voltei sem saber como a encontraria, mas otimista, como é da minha natureza. Ligo para o celular e caio na caixa de mensagens. Passam-se horas antes que Ela me retorne. A frieza eu esperava, talvez até pior, mas não esperava que cortasse a conversa tão curta. Desencontro.

À noite, reunimos a turma pra sofrer com a seleção do Parreira e ele não nos decepciona: que sufoco! Meu Amigo Cachinhos, que ficou amigo d'Ela também, explica-me por que nosso papo foi tão curto: para Ela, houve outro encontro.

Levanto hoje com duas opções: insistir, convidá-La pra um sorvete à tarde, ou deixar pra lá, quem sabe ir atrás de Tertius Quid, que nunca parou de me ligar, chamando a si a tarefa de regar a plantinha. Deito para sestear e durmo demais, já é muito tarde para o sorvete, sei que Ela tem de pegar o filho na escolinha.

Com duas ligações posso estar em contato com Tertius Quid, mas resolvo fazer as coisas do jeito mais divertido: pego a bicicleta e saio pelas ruas de areia batidas pelo Sul, à procura da escola municipal onde ela está lecionando à tarde. Vou em busca dela como quem não vai, quem sabe esperando que a sorte nos una. Em frente à escola, vejo algumas mulheres conversando, mas ela não está.

Pedalo até a praia; maresia, meu combustível. O Atlântico está encabritado, também ele desinquieto sob este Sul.



Volto pela Avenida, já pensando em comprar sorvete. Em frente à sorveteria, há um ponto de ônibus. No ponto de ônibus, Tertius Quid me sorri. Combinamos um mate amanhã à tardinha. Encontro.





Sexta-feira, Novembro 14, 2003
 


Restaurante Baalbeck, o cenário de muitos dos nossos encontros. Cabiludo não se conforma com o fato de eu não ter um vibrador. Na cabeça dele, toda mulher solteira com mais de 30 tem um vibrador. As mulheres da série Sex and the City volta e meia recorrem a um vibrador. Mas eu não tenho. Então ele nos conta a loucura que foi quando uma "hóspede" chegou trazendo o brinquedinho. Fico imaginando a cena. Ele abre a porta do apartamento. A "hóspede" entra. Na minha cabeça, nada de roupa de couro preto. Ela veste vermelho. Um vestido. Tem que ser um vestido vermelho! Então ela vai até o sofá, senta, cruza as pernas, e lentamente, com um sorriso malicioso nos lábios também vermelhos, abre o zíper da bolsa e tira de lá aquele objeto rosado. Sim, na minha imaginação o vibrador dela é rosado. O tamanho do vibrador é importante e ela sabe disso. Um vibrador muito grande pode fazer com que ele fique constrangido, que entenda aquele ato ousado como uma mensagem subliminar de que ele não está dando conta do recado. Se for muito pequeno, pode parecer bizarro. E tudo o que ela não quer é que a noite termine com ele tendo um ataque de riso. Então ela escolhe o vibrador rosado de tamanho médio. E como há poucas coisas em termos de sexo que ele não esteja disposto a experimentar com uma mulher de vestido vermelho ... Sim, reticências, porque os detalhes mais íntimos ele não nos conta. Rodrigo, então, se manifesta. "As americanas encaram um vibrador com mais naturalidade do que as brasileiras". Ele é categórico, definitivo. Rodrigo é sempre assim. Categórico. Definitivo. E ele gosta de causar impacto. Mas acho que ele tem razão. Comento com uma amiga que ando tendo insônia todas as noites e ela me diz que o melhor remédio para isso é eu ter um encontro comigo mesma. Quando tem insônia, ela se dá um trato, se acaba, e em seguida está dormindo profundamente. Mas ela não tem vibrador. Nenhuma das minhas amigas tem. Lembro o desconforto que senti ao entrar em uma sex shop. Como se estar ali fosse um crime e eu tivesse que me esconder. Cremes para massagem, roupas íntimas, cueca de couro, cinta-liga, algemas, fantasias, joguinhos sexuais, bolinhas, filminhos pornô e vibradores dos mais diversos tipos, para os mais diferentes gostos. Vibrador com textura, vibrador com presilha para seios, vibrador com gosto de morango, vibrador com piercing... Aliás, como um pensamento conduz a outro e eu não consigo esquecer totalmente esse meu lado publicitária, vocês não acham que aquela música do Tequila Baby poderia ser jingle de sex shop? "O meu negócio é sexo, algemas e cinta-liga". Mas afinal, saí da sex shop com o Jogo do Toque. Na fila, antes de mim, uma garota estava comprando justamente um vibrador. Quando me viu, se sentiu na obrigação de explicar: "não é pra mim, é presente para um amigo". "A-hã. O meu também", respondi mostrando o Jogo do Toque que estava na minha mão. A moça do caixa mal conteve um risinho malicioso. Ela deve estar acostumada a ouvir isso. Rodrigo, então, faz a grande revelação da noite. Ao lado da cama, na mesa de cabeceira, ele guarda um martelo e um pequeno massageador. Quando está inspirado, ele se oferece para fazer uma massagem. E assim que ela concorda e se vira de bruços, ele saca o massageador da mesinha de cabeceira e começa a massagem. Pelas costas... vai descendo. E antes que ela possa reagir, o massageadorzinho está promovendo uma revolução em lugares muito mais íntimos! Quanto ao martelo... o martelo não tem nada a ver com essa história. Ou tem?



 
Este blog é para falarmos de encontros e desencontros (... A vida é a arte do encontro/ Embora haja tanto desencontro pela vida..., dizia o Poeta), mas ninguém disse que têm de ser encontros e desencontros carnais, de língua na goela e mãos pelo entrepernas.

Pousentão: aqui segue um post meio muito narcisista e com (quase) zero de erótico, as Platonic as they come: minha Amiga convida-me para um programa quase família: vamos ver um grande parceiro nosso apresentar-se no Gasômetro. Por via das dúvidas, mato seis latas de Heineken em casa, antes de ela passar pra me buscar. Pouco depois de chegarmos, encontramos nosso Amigo a "meio pau": ele também achou melhor dar uma calibrada antes do show. Formamos uma roda barulhenta e continuamos tomando birras, meio que fodendo o sarau da Kátia Suman et alli. Chega a hora da apresentação e parte do povo se manda, abrindo espaço nos bancos colocados no terraço da usina para minha Amiga e eu sentarmos, enquanto nosso Amigo toma o violão e vai, solito (¡ los cojones que hay que tener!), ocupar o palco e cantar pro povo.




E aí, bem sentado à beira-rio, sob uma lua cheia duca, ouvindo cantar um Amigo, invade-me um bem-estar que eu não sentia desde há um mês, em Floripa. Comento com minha Amiga: neste instante, não queria estar em nenhum outro lugar!



Se alguém disser que esta não é uma história nem de encontro nem de desencontro, tem razão: é uma história de reencontro: eu comigo mesmo.





Quarta-feira, Novembro 12, 2003
 


Noite dessas, de um passado não tão distante, estávamos eu, Rodrigo e Cabiludo na Baga-sexta, a já tradicional festa que reúne o meio artístico porto-alegrense. Saí da pista de dança e fui até o balcão do bar comprar uma cerveja. Ele chegou logo em seguida, parou ao meu lado e puxou conversa. E foi nesse momento de troca de frases ao pé do ouvido, quando os corpos começam a se aproximar perigosamente, que o Rodrigo passou por nós. Passou como em um filme mudo. A mão em forma de "L" e os lábios emoldurando palavras que ele não pronunciou, mas que eu entendi: "Loser, baby, loser". Alerta inequívoco. Mas àquela altura da noite eu não estava muito preocupada com isso. Ele tinha o nome do meu irmão e trabalhava com educação de menores infratores e outros projetos sociais. E só por isso, já parecia o homem mais interessante daquela festa. Mas não chegamos a conversar muito porque ele logo decidiu ir às vias de fato. A língua dele invadiu minha boca ao mesmo tempo que, abruptamente, de forma quase selvagem, sua mão invadia o espaço entre as minhas coxas. Foi tudo muito rápido. Na minha cabeça, o Rodrigo passando em câmera lenta, seus lábios desenhando repetidamente aquele alerta: "Loser, baby, loser". Me desgrudei do homem do balcão e fui embora. Encontrei o Cabiludo, já bêbado, no meio da pista de dança. Mas não demorou muito para o homem do balcão se materializar na minha frente, como nos filmes de terror em que o assassino sempre faz uma aparição inesperada diante de sua vítima. Ele passou a mão ao redor da minha cintura e eu achei que ele estivesse arrependido do súbito ataque sexual. Ainda em seus braços, me soltei ao ritmo da música. E a língua dele entrou na minha boca ao mesmo tempo em que a mão voltava a mergulhar entre as minhas coxas. Furiosa com a minha estupidez, puxei o Cabiludo e fomos embora. "Loser, baby, loser". A cena do Rodrigo passando repetidamente pela minha cabeça. Só que ele não se referia mais ao homem do balcão. Ele falava para mim. Para mim! "Loser, baby, você é loser".


* Loser = perdedor, fracassado.




Terça-feira, Novembro 11, 2003
 
No Carnaval, Ela pensou que eu pensava que Ela era uma daquelas "árvores" estranhas de mangue, cujas raízes saem fora da água e são como um rascunho do tronco: uma coisa que se pode plantar na praia. Por conta disso ("...e qualquer desatenção, faça não: pode ser a gota d'água...", já dizia o Poeta), voltou ao apartamento onde estávamos hospedados, fez as trouxas e se foi, sem ao menos dizer que ia me deixar à medida do Bonfim. Em resumo: gotas d'água mútuas. Um final perfeito; quem sabe, até Hollywood engoliria.



A folia acabou, o tempo passou. Nas noites da Cidade Baixa, voltamos a nos encontrar e soube que havia sido perdoado, o que não quer dizer que a recíproca era verdadeira. Recomeçamos de um patamar diferente, bem entendido que não havia uma relação, mas apenas um bem-querer, ou assim pensei. Um parêntese ilustrativo: numa noite em que cozinhei (decentemente, modéstia adiada), estávamos sentados à mesa (Thaís, co-blogueira, presente) e discutíamos um texto antigo do Rodrigo (co-blogueiro): "a revolução sexual: mito ou realidade, Macy Gray?", eu defendia a posição radical segundo a qual só teríamos uma verdadeira revolução sexual no dia em que as despedidas de solteiro/chás de panela fossem assim organizados: os amigos do noivo surubando com as amigas da noiva, claro que com os noivos incluídos. Ao longo da discussão, Ela oscilou mais para o lado radical do que para o lado conservador. Pra não exagerar: havia um mínimo de sintonia.

Há poucos dias, para não a surpreender, conto-lhe que terei hóspede na semana seguinte. Ela faz uma cena, bate a porta e me deixa de novo. Agora não sei se espero que nos encontremos pelos bares e ela promova outro Yom Kippur ou se esta foi a violação da regra-três. Minha consciência insiste em me inocentar de canalhice, pelo menos desta vez. O que fica é a certeza de que não importa o discurso: o que quer que elas digam à mesa, no fundo querem monogamia. Ser um Gen-X, ao que tudo indica, exige também entender estas sutilezas, administrar estas incoerências.




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