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Histórias de encontros e desencontros. Sexta-feira, Dezembro 26, 2003 O convite para dar um passeio na beira do rio me pareceu perfeito. Fazia tempo que não íamos lá. Aquele rio, o sol se pondo... O cenário do nosso início, de quando não sabíamos o que seria de nossas vidas e ter achado alguém com quem dividir as angústias parecia a ser a melhor coisa do mundo. E era.... " Agora eu sei o que é o amor, agora eu sei..." Nós tão jovens e tão cheios de angústias... Lembro-me dela assim: Angústia. Como se esse realmente fosse seu nome. Angústia. Linda Angústia que eu conheci numa tarde de inverno e que fez da minha vida festa e tempestade. Linda Angústia... Penso nela assim, chamando-a por esse. Não é mais Ana, nem Marisa, não é mais nada além de Angústia para mim. Naquele dia eu queria estar a sós com ela. Precisava falar. Não sabia o quê, mas tinha a sensação de que precisava estar a sós com ela . Algo me pedia para estar a seu lado, para olhar nos seus olhos, segurar sua mão, exatamente como fazíamos no começo, pouco mais de um ano antes. Ela, como sempre, leu meus pensamentos e me ofereceu o que eu precisava. "Vamos dar uma volta lá no rio?" - perguntou naquele fim de tarde de verão "Sim , vamos dar uma volta..." - respondi aliviado Lindo sol cor de laranja desmaiando à nossa frente. Nossas roupas, nossos olhos, nossas peles, tudo tão alaranjado... Eu minha doce Angústia passeando de mãos dadas na beira do rio. "Adoro o vento quando bate assim nos meus cabelos..." - falava essas coisas e depois abria os braços para deixar o vento envolve-la por completo. Os mesmos olhos tristes e docemente eróticos do nosso começo. E dizia essas palavras ao vento. Compramos pipocas e sentamos em um banco de frente para as águas mansas do rio. Tudo tão alaranjado e lindo. Encostou-se a mim, de mansinho como sempre e se aninhou no meu peito, e pediu um abraço forte. Todo morno com o calor do seu corpo eu fiquei... Ouvindo o vento soprar na nossa paisagem, ouvindo Angútia respirar bem perto do meu peito, ouvindo meus próprios pensamentos... " Agora sei o que é o amor, agora eu sei..." que se repetiam feito um mantra em minha cabeça. "Agora eu sei o que é o amor, agora eu sei o que é o amor, agora eu sei ..." Angústia junto a mim, com seu cheiro de canela , seu beijo que eu sabia era o beijo definitivo para mim, seu sexo que eu sabia era o sexo definitivo para mim... Angústia era a mulher que me havia feito como eu era, que me dera meus contornos , que me construira com seu olhar amoroso. "...agora eu sei o que é o amor, agora eu sei, agora eu sei o que é o amor..." Passei a mão por seus cabelos escuros, senti a temperatura perfeita de sua pele, olhei para seus olhos de amêndoas , entreabri meus lábios e as palavras não vinham. "Preciso te dizer uma coisa" - foi o que saiu depois de uns instantes. Ela, toda silêncio, levantou o olhar até encontrar o meu... Quando me olha nos olhos sei que sou capaz, sou capaz de tudo quando minha Angústia me olha nos olhos como se dissesse " eu confio em você , vá em frente..." Não sorriu, apenas me olhou com uma firmeza que só o amor pode dar. E eu, lábios tentando articular alguma coisa, voz que se escondia em algum lugar recusando-se a sair, coração explodindo na garganta a cada batida... O mesmo pensamento se repetindo um milhão de vezes: "agora eu sei o que é o amor, agora eu sei o que é o amor..." Ela me olhando, toda coração, toda amor por mim, toda olhos corajosos me dando a coragem que eu não tinha... Eu tentando achar uma forma, uma força qualquer para dizer o que estava na minha cabeça e que parecia tão impossível de ser dito: "agora eu sei o que é o amor..." Ela segurando firme na minha mão sem desviar os olhos um segundo sequer. "Eu vou me separar de você..." - eu disse com uma voz tão rascante que nem parecia minha. Ela, estátua, pedra, diante de mim, respiração suspensa, olhos incrédulos... Eu: "conheci outra pessoa, agora eu sei o que é o amor..." Ela, ainda pedra, uma lágrima enchendo de brilho o olho gelado.Soltou lentamente minha mão, desviou seus olhos dos meus e perdeu-os na paisagem. Levantei, tentei dizer adeus mas não ousei, parti caminhando pela beira do rio acobreado pelo sol que morria devagar. Angústia ficou lá sentada naquele banco, o vento batendo em nos cabelos... Jamais conversamos de novo. ... A outra pessoa... Também ficou em algum lugar por aí enquanto eu partia lentamente. A outra pessoa... Não lembro muita coisa sobre ela... Não, ela não me ensinou o que era o amor. ![]() Quarta-feira, Dezembro 24, 2003 Da série: Causos de um passado Cabiludo História de hoje: Selenita -- Parte III (e última?) Para quem conhece o "Bochincho", do J.C. Braum: "Mas o que é bom se termina -- cumpriu-se o velho ditado, e eu que dançava, embalado, nos braços doces da china... " Pois é, eu que vivia o idílio que me permitia nos braços longos e doces de Selenita, dei a primeira despirocada geral. E ela me acompanhou: fizemos muita merda, de parte a parte. Eu implicando de graça, quase puxando briga, com um amigo dela; ela me botando um trezoitão niquelado, graçazadeus descarregado, nas fuças. Fizemos muita merda...
Munch -- O Grito E aí a Vida interveio e nos separou: eu fui, pela primeira vez, tentar a vida em POA; ela, em Barcelona. Dependendo da situação, porém, a distância pode ser um catalisador, ao invés de ser o banho d'água fria que geralmente é para uma relação. Trocamos cartas lindas (isso foi anos antes do e-mail). Quando ela cansou de dar murro em ponta de faca por lá, voltou e foi ficar na casa que o irmão da Austrália mantinha em POA. Procurou-me. Revivemos umas belas bimbas, carinho nunca faltou, mas não dava mais pé, depois de tanta merda que fizemos, de parte a parte. De lá pra cá, e já vão muitos e muitos anos nisso, só desencontro. Quem sabe não é melhor assim? Terça-feira, Dezembro 23, 2003
A Fênix Fim de ano me faz pensar em separações. Foi nessa época que meu pai achou que já tinha passado tempo demais com minha mãe. 30 anos. Arrumou as malas e foi morar com outra. Foi nessa época que o homem que eu amava achou que já tinha passado tempo demais comigo. 3 anos. Ligou pro meu trabalho e comunicou que estava namorando outra. Separações ocorrem quando os desencontros do que se supunha encontro se tornam insustentáveis. A minha vida é um mosaico de separações, mas as mais marcantes foram as de final de ano. Apesar disso, ainda acredito em encontros e ainda gosto de finais de ano. Quando ele ligou pro meu trabalho e disse que tinha outra, me senti perdida. Trocar a passagem já comprada pro Rio de Janeiro até que era fácil, mas o que fazer com os planos, com os sonhos, com a expectativa e tudo o que nosso encontro representava? Antes que eu pensasse em ficar trancada em casa, de pijama, devorando barras e mais barras de chocolate e mergulhando a minha dor em álcool na tentativa de anestesiá-la, fui salva pelo Cabiludo. A proposta dele era irrecusável. Final do ano no Costão do Santinho, ele pagando. Eu só tinha que trocar a passagem. Assim foi, assim fui. Encontro no aeroporto. Cabiludo chegando dos Estados Unidos. Eu, de Porto Alegre. No Ano Novo, nem verde, nem vermelho, nem amarelo, nem rosa, nem azul, nem branco. No Ano Novo, me vesti de prata. Quando o relógio indicou meia-noite e os fogos começaram a estourar no céu, corri para o mar e pulei as sete ondas. Foi a primeira vez que sucumbi a uma simpatia de Ano Novo. Nosso grupo, animado pelas várias garrafas de champagne já consumidas, começava a se dispersar. Algumas pessoas ainda se serviam do pouco que sobrava na mesa antes farta do buffet. A área ao redor das piscinas já se transformara em uma animada pista de dança. No limite entre as piscinas do hotel e a areia da praia estava o palco onde um grupo tocava todos os hits do momento. A noite estava estrelada. O mar, excepcionalmente tranqüilo. Eu, ali, estava feliz. Felicidade tão improvável que eu mal acreditava nela. Mas eu estava verdadeiramente feliz. Inacreditavelmente feliz. Pensei em fazer uma boa ação. A primeira boa ação do ano. Por isso, prestei atenção em tudo. Prestei atenção na festa e nas pessoas. Identifiquei o alvo da minha boa ação em um canto isolado da festa. Era um garoto sério. Sério e feio. Estava parado, os pais ao lado. Fiquei observando por alguns minutos. Os pais abraçados, sorrindo um pro outro. Ele parado, não sorrindo pra ninguém. Sério, feio e sozinho. Era o único de toda aquela festa que não parecia feliz. Então eu me aproximei e o convidei pra dançar. Os pais me olharam. Ele não. Me dispensou sem palavras e sem cerimônia. Danem-se as boas ações. Fui pra pista dançar sozinha. E agarrei o paulista gostoso que eu tinha visto à tarde na piscina. Àquela altura, ele já estava bêbado. Eu também. Fizemos sexo na praia. Algumas pessoas passando. E daí? Depois, não segurei a cabeça dele enquanto ele vomitava sua bebedeira. Catei minhas sandálias de prata e voltei para a festa. Areia no vestido e nos cabelos. Danem-se as boas ações. Eu sou má. Naquela noite, me libertei. Naquela noite, em prata, me fiz fênix. Segunda-feira, Dezembro 22, 2003 Da série: Causos de um passado Cabiludo História de hoje: Selenita -- Parte II A primeira parte da história de Selenita é, ao fim e ao cabo, uma história de encontro. Esta segunda parte é, antes de mais nada, a história de um não-encontro. Lembro, inevitavelmente, do Poeta: "... que ele ainda não está maduro/ pra essa escuridão de amor... " Não há dúvida de que este era o meu caso: eu podia estar pronto pra me formar, pra dirigir uma 350 a quase 200 km/h sem me acidentar, pra transar com Selenita, mas não estava pronto para o amor. Vivíamos, sem nenhuma necessidade, um caso clandestino. Chegamos ao ridículo: Selenita fazia um bico de secretária na escola onde minha mamma ensinava francês (e eu, bom menino, era aluno da véia!); houve noites em que saímos de carona juntos do curso como se nada houvesse, deixamos Selenita na casa dela, chegamos em casa, inventei uma história qualquer, peguei o carro, apanhei Selenita e fomos para a praia. Fugíamos da cidade para a praia ou da praia pra cidade, dependendo da estação e dos apês liberados. Houve um dois de fevereiro memorável: dia de Iemanjá, a praia lota: chegamos ao apê da cidade por volta de 1AM de sábado e só voltamos a pôr o pé na rua e a ingerir algo sólido passando das 10PM de domingo, depois de bimbas tais e tantas que eu não conto porque nem eu acredito. "Que tempo bom, que não volta nunca mais..."
Faz muito tempo que ouvi a seguinte história: em uma roda na Expointer, o dono de um canil conta que tem um trabalho duro e cruel de seleção: se uma de suas cadelas dá à luz, digamos, nove cachorros, ele tem de em seguida torcer o pescoço de três ou quatro, para evitar o desgaste excessivo da mãe e para assegurar que os sobreviventes se criem bem. Neste ponto, alguém na roda lhe pergunta: "Mas como é que o senhor sabe, tão cedo, que não está sacrificando os melhores?" A resposta: "Isso eu nunca vou saber: os que eu torço o pescoço, eu nunca vou saber o que teriam sido -- eu me preocupo com os que ficam." Da mesma forma, jamais saberei o que Selenita e eu teríamos sido se eu estivesse pronto para aquele amor que estava no ar, que estava nos corpos, que era tão cúmplice e tão gostoso e que deixei escapar, porque "Aos 18 anos, o homem não sabe nem como se diz bom-dia a uma mulher..." Sábado, Dezembro 20, 2003
... e não sobrou nenhum. O homem que me tirava o sono estava lá. Mas pra ele, por imposição dos amigos, eu estava proibida de olhar. Pelo menos por uma noite, uma noite apenas, esquecer que ele existia e me concentrar em outro. Foram eles, os amigos, que definiram meu foco. "Aquele ali. Ele ficou te olhando quando passou por aqui. E ele combina contigo". Então, obedeci. O homem que me tirava o sono estranhou. Bastava ele estar presente pra que eu esquecesse de tudo e todos ao redor. Mas não foi assim naquele dia e ele logo percebeu que eu estava concentrada em uma nova conquista. Rodrigo diz que Porto Alegre é a cidade do eterno flerte. As pessoas passam a vida inteira indo nos mesmos lugares, sempre se olhando, sorrindo, jogando o cabelo pr'um lado e o charme pro outro. A vida inteira e nenhuma palavra. Ela aqui e ele lá. Então, não foi surpresa ter passado a noite inteira olhando fixamente pra ele, ele pra mim, e nada, nada acontecer. No dia seguinte, o homem que me tirava o sono ligou. Tinha que me ver. Era urgente. Não, não podia ser amanhã, tinha que ser hoje. Acabei concordando com um encontro em um bar da Cidade Baixa. Nesse mesmo dia, o homem que eu amava a distância avisou que estava chegando. "Meu vôo chega às 22h. Te espero no aeroporto". O encontro com o homem que me tirava o sono não tinha mais como ser desmarcado. E na verdade, eu não queria desmarcar nada, eu não queria mais adiar minha vida por causa dos caprichos do homem que eu amava a distância. E o homem que eu amava a distância estava chegando. 22h. Aeroporto. Eu estava lá, ainda sem saber ao certo como administrar o inevitável confronto entre meus dois amores. Quando chegamos ao bar, eu ainda não tinha encontrado as palavras que explicariam a minha situação ao homem que eu amava a distância e que, naquele momento, estava tão presente e tão próximo. Mas como a vida estava disposta a me provar que também tem muitos caprichos, assim que entramos, dei de cara com o foco, o flerte da noite anterior, encostado no balcão, garrafa de cerveja em punho. Ele tinha que escolher aquele dia, justamente aquele dia, pra estar ali sozinho. Ele, que nunca havia entrado ali antes. "Já que o destino insiste, hoje eu não vou te perder". O foco sussurrou essa frase já me puxando pelo braço. "Hoje, vou te prender". E eu realmente achei que fosse o destino, porque esse tipo de situação é coisa que só acontece na mente criativa e sádica de roteiristas e escritores, é coincidência demais para ser a vida real de uma pessoa comum como eu. Destino, o escritor mais louco e sádico que existe, o roteirista de nossas vidas. Estive prestes a acreditar nisso tudo. Escolhas. A Esfinge me deixou diante de três caminhos. Algum deles seria o certo? Não cheguei a escolher. Antes disso, o próprio caminho se impôs. Foi uma questão de segundos, mas vi tudo acontecer em câmera lenta. Enquanto eu pensava, enquanto eu tentava decifrar o significado desses encontros, os braços dele me seguraram firme e senti a pressão da sua boca contra a minha. Pela primeira vez, não fechei os olhos em um beijo. Imagem e som distorcidos. Vi o homem que me tirava o sono chegar ao bar e parar na porta, estático diante da cena. Vi o homem que eu amava a distância fugir, lágrimas incontidas. Tudo muito rápido. Tudo em câmera lenta. Abandonei o beijo, pedi desculpas ao homem que me tirava o sono e corri para alcançar aquele que eu amava a distância. A vida é uma armadilha, não há caminho certo. Naquele momento em que nada fazia sentido, tudo fez sentido. Perdi três amores. Ganhei três amigos. Sexta-feira, Dezembro 19, 2003 ![]() Solidão , um balcão de bar e algumas doses de tequila podem causar coisas terríveis na vida de um homem... E algumas dessas coisas terríveis podem acordar ao seu lado na manhã seguinte. Assim é Úrsula, uma coisa terrível que surgiu na minha vida como um poltergeist, uma assombração numa dessas noites de solidão e muita tequila na cabeça. Úrsula é uma garota, apesar desse nome de transexual cearense... É uma mulher de verdade e descende de alemães. Não é muito alta, magrinha, cabelos louros e pequeninos olhos azuis. Tudo isso já faz mais de um ano, nunca consigo lembrar direito das coisas que acontecem entre nós. A tequila está sempre tão presente em nossos encontros que a memória não me acompanha até o dia seguinte. Úrsula sempre me acompanha até o dia seguinte, acorda ao meu lado e insiste com aqueles beijos idiotas na minha nuca... Sempre penso que é a última vez que vou vê-la e quando percebo estou mais uma vez acordando com a cabeça dolorida, uma ressaca dos diabos e Úrsula dormindo nua ao meu lado. E assim essa pessoa tem feito parte da minha vida nos últimos meses, no último ano talvez... Certa vez, logo depois de fazermos amor (não acredito que chamei aquilo de fazer amor) eu disse a ela: - Úrsula você é surpreendente! Ela sorriu. E eu continuei: - Me surpreeende que eu esteja aqui com uma mulher tão feia como você. Úrsula deu um tapa na minha cara. E continuou sorrindo. E fizemos amor de novo. Ela não tem orgulho, posso dizer o que quiser a ela. E a partir desse dia ela sempre começa o nosso amor com um tapa da minha cara. E eu sempre digo: - Úrsula, você é a mulher mais feia com quem eu já transei. Você é a mulher mais feia do mundo. E digo isso do fundo do meu coração. Úrsula é feia. Tem um nome horrível, é flácida, estrábica e possui o pior gosto musical da face do planeta. Desprezível Úrsula. Desprezível Úrsula que eu não consigo desprezar. Impossível dizer não para Úrsula, impossível deixá-la numa mesa de bar sem levá-la comigo. Eu e Úrsula e nosso sexo sem amor. Sem nenhum amor. Eu não a amo e pouco me importo com ela. E posso chamá-la de assombração e dizer a ela o quanto ela é feia e burra. E ela bate na minha cara e eu revido com mais uma bofetada E no sexo ela não tem melindres, não tem nojo de nada, não se recusa a nada... Faz tudo que eu mando e me manda fazer as coisas mais absurdas. E ficamos assim, fazendo as idéias sujas um do outro... Eu nem me importo se ela está feliz, ou se gozou. E ela sempre goza. Nem que tenha que tirar seu vibrador da bolsa e resolver tudo sozinha bem ali na minha frente. E depois me olha, a vaca, e diz - ele é melhor que tu! Úrsula me diz que o vibrador é melhor que eu e eu nem me importo. Quem se importa com o que ela diz? Nunca apresentei Úrsula a meus amigos, ela é burra demais para conviver com eles. Ela também nunca me pediu para ser apresentada a ninguém. Eu não me importo nem um pouco com Úrsula, mulher feia, sem atrativos, nem inteligente é. Três semanas. Nem um segundo, nem um minuto da minha vida eu perco pensando nela. Mais de vinte dias... Não significa nada para mim. Ela é um poltergeist, uma assombração que aparece na minha cama na manhã seguinte... Mais de vinte dias sem aparecer... E eu detesto Úrsula e seu corpo feio, seus seios caídos, sua cara magra... Onde andará Úrsula? Talvez esteja agora acordando na cama de algum vagabundo por aí. Ela não tem compostura, é uma desclassificada, certamente deve estar saindo com algum bêbado cretino. Úrsula não aparece mais nos bares, não manda mais notícias... Você sumiu, sua idiota! Onde andará você que há tanto tempo não acorda nua ao meu lado dando beijos quentes na minha nuca? Foda-se. Quem se importa com Úrsula? Quinta-feira, Dezembro 18, 2003 Da série: Causos de um passado Cabiludo História de hoje: Selenita -- Parte I "Aos 18 anos, o homem não sabe nem como se diz bom-dia a uma mulher. O homem devia nascer com trinta anos." Nelson Rodrigues Selenita caiu como uma bomba na nossa pacata turminha do CCAA: loura, alta, coxuda, simpática, sacana, cinco anos mais velha do que nós, então pré-adolescentes, ela era tudo com o que sonhávamos nossos wet dreams e com o que ocupávamos aquelas horas solitárias pelos banheiros da vida. Depois deste primeiro encontro fulminante, época em que ela era inacessível como Jessica Rabbit, sobreveio largo desencontro: foi morar na Austrália com um irmão por anos.
Quando Selenita voltou, eu já era gente e estava na faculdade, em uma turma que promovia festas para levantar grana pra formatura. Sua prima namorava um colega nosso e o tempo havia tornado desimportante a diferença de idade que antes a separava de nós, então Selenita passou a freqüentar nossas festas. Aos poucos, foi se enturmando. Eu era tímido como um tatu mulita e tinha vivas as lembranças de quando ela era muita areia pra nossa turminha de inglês, então mantinha uma distância respeitosa. Selenita, porém, tinha outros planos: começou a Sucessão Natural (por favor, não confundir com a Seleção Natural!). A sucessão é um processo que ocorre na flora de certas regiões, em que ao longo do ano não apenas há um rodízio de espécies, mas na verdade algumas espécies preparam o terreno para o aparecimento de outras. (Cabiludo também é cultura!) Então Selenita comeu o Mano, depois comeu o Momoso (que brigou com ela por um copo de Nescau!), e um dia me olhou com aquele olhar de dona de casa avaliando o peixe que lhe oferecem. Lembro da tarde de outono em que isso aconteceu: a Lu tinha sofrido um acidente bobo, sem maiores danos, com o seu buggy numa dessas esquinas de areia e nós fomos chegando completamente ao acaso. Selenita já estava quando cheguei. Ofereceu um Halls, alguém aceitou e ela partiu ao meio com o canino, porque era o último. Eu observei que eu tinha coisas melhores pra fazer com os meus dentes, e fiz uma cara que eu queria maliciosa. Funcionou. Foi aí que ela me olhou com olhar de avaliação e pensou: "E este safadinho? Este não foi ainda..." Criaram-se ali as condições para que Selenita continuasse com a Sucessão Natural. "O Livro de Areia" é um dos últimos livros do Borges em prosa; nele, há um conto que, segundo o próprio autor, é um de seus raros textos sobre o amor. Depois de uma caminhada através de um bosque, Borges e uma norueguesa chegam a uma pousada e a viking se lhe oferece; ele diz: "de repente, percebi que algo que eu desejava não me estava vedado." No meu caso, foi na festa junina na casa do Mano: lá pelas tantas, o sorriso de Selenita era um sim, ou pelo menos um talvez, e seus lábios, que eu tanto desejava há tanto, encontraram-se com os meus. O sofrimento dos meses seguintes foi algo à Poe, "The Pit and the Pendulum", to say the least.
Intimamente, eu tinha fé no meu taco e achava que cedo ou tarde ela seria minha, mas Selenita negaceava. Agarrava-me ao final das festas, depois tirava o time de campo, deixando-me completamente transtornado. Houve uma festa em que Nara veio visitar o irmão, meu grande amigo. Nós já tínhamos ficado algumas vezes, lá na terra deles, então nesta noite eu me via embananado, entre as mil possibilidades de Selenita e as tímidas certezas de Nara. A noite foi correndo, Selenita não me dava nenhum sinal, e eu esperando, e Nara não entendendo, e a noite passando, e os mais loucos já transando no banheiro, e a noite passando e birra sobre birra. Nara tem os olhos mais lindos que já vi por aí: dois oceanos não pacíficos (dizia o Poeta Manuel Bandeira de Maysa): um azul profundo e melancólico. Eu já estava a ponto de mandar Selenita às favas, quando ela foi ao banheiro, voltou e, sem dizer meia palavra, grudou-me de uma maneira inenarrável. Deixou-me sem fôlego e me disse o que sempre me dizia, e que eu adorava pela simplicidade e pela liberdade e odiava pelo quanto deixava para um depois tão incerto: "A gente se vê na seqüência!" E se foi. Fico apalermado, olho ao meu redor e encontro os olhos de Nara mais tristes do que nunca. Vai me dando uma vontade de chorar que eu resolvo afogar de vez em birras. Acho que foi a noite em que Selenita mais me judiou, e de Nara também, por tabela. A estas alturas do campeonato, já era inverno entrado e enraizado. Para quebrar essa rotina de noites que não dão em nada, combinamos de almoçar na praia sábado. Chego cedo e abro o apê pro dia radiante que faz na rua, raridade no inverno deste sul do Sul. O telefone toca e ela me diz que está atrasada, que não vai chegar pro almoço. Depois de conseguir não mandá-la à merda, resisto à tentação de enrolar o fio do telefone no pescoço e pular da sacada. À tarde, ela chega com sorvete e uma cara que é um tratado de paz selado e abençoado pelo Papa. Conversamos. Jantamos. Faço um esforço e tomo vinho tinto. Na volta pra casa, fazemos uma escala na Lu e Carioca, que têm o luxo de uma lareira. Somos mui bem recebidos e metemos mais um vinito, que a Lu tem sempre à mão. De repente, naquele clima de amizade em frente à lareira, sentimos que estamos aceitos como casal, que fazemos sentido juntos. Voltamos para o apê e as coisas fluem com uma naturalidade surpreendente. Eu realizo uma fantasia que incubei toda a minha adolescência. Ela se agrada da pegada insuspeitadamente firme, do corpo de nadador que agüenta o tranco. O começo de uma bela amizade. ![]() Terça-feira, Dezembro 16, 2003
Nós, fragmentos. Nunca fomos completos. E ele talvez pense o contrário. Mas disso, estou convicta. Nunca fomos completos. Tudo começou com olhares naquele bar. Os 1,98 dele não combinavam com meus 1,60. Ainda assim, nos beijamos nas escadas. Ele, quatro degraus abaixo. - Posso te ligar, então? Quero que saibas que você salvou minha semana. Acordar pensando em alguém é muito bom!!! - Oi! Lembrei de você (isso acontece toda hora) e queria desejar um ótimo final de semana. Ele passou a escrever e a ligar. Escrever sempre, ligar sempre. A vida dele era em outro lugar, em outra cidade. E eu nem sabia o que era da vida dele. Só sabia que ele era passageiro em Porto Alegre. Só sabia que ele não me contava tudo. E porque se revelou em pedaços, desde o início eu o soube fragmentos. - O que você acha de tomar um vinho amanhã à noite na companhia de uma pessoa agradabilíssima (sou eu, caso exista dúvida)? Eu fui. O quarto do hotel. A aliança que ele esqueceu de esconder. Uma mulher. Uma filha de um ano. Uma vida feliz. E eu, no meio. Eu, inevitável. Eu, acidente de percurso. Eu, o deixando perdido, o deixando louco. Eu, que não o amava. Sempre fragmentos. - Estou imaginando a tua "cor levemente dourada" e não consigo mais me concentrar no trabalho. Se você não puder amanhã, que tal na sexta-feira? Eu prefiro amanhã porque estou com saudades e louco pra te dar uns beijos. - Eu tinha planejado te ver em torno das 21:00h, tomar um vinho, (você gosta de uvas? e chocolate?) cobrar aqueles beijos, pagar outros beijos, contemplar esse teu sorriso lindo, te fazer carinhos, dormir como "irmãozinhos",... te levar pro trabalho e ir trabalhar. Pensamentos fragmentados também. Uma mulher. Uma filha. Uma vida feliz. Eu, que não o amava. Eu, que precisava do carinho que ele me dava. Então, mais uma vez, eu fui. Mas não fui pra ficar. Eu não queria ficar. Não queria fazer parte da vida dele. O que eu queria, mesmo, eram aqueles fragmentos. Ele não discutia. Ele aceitava esses limites. Ele concordava com tudo. - É claro que pode ser. Tudo o que a "Princesa" quiser esse escravo fará (hahaha). Mas onde eu te encontro? E assim foram passando semanas. - Bom dia "Princesinha Sargento"! Como sempre, não consigo esquecer você e os momentos que tivemos juntos. Estou com saudades. Nós realmente somos muito parecidos. Tenho pensado "direto" em você. Queria te desejar um bom fim de semana e uma ótima sexta-feira com as amigas. O "velhinho" vai para o esconderijo pensar nas coisas que aconteceram e sonhar um pouco. Beijos (muitos e pulverizados) - Bom dia Pestinha! Gostei muito de te ver ontem, mas já estou com MUITA SAUDADE. Te adoro. Foram passando meses. - Bom dia Pestinha! Hoje estou mais feliz, pois sei que vou te ver. - O dia está uma m.... Mas você já conseguiu me reanimar. - Com foi o fim de semana? Por acaso, lembrou de mim em algum momento? Só não te liguei ontem à noite porque cheguei muito tarde, mas estava louco pra te dar um beijão de boa noite. - E você, como está? Tudo bem? Na próxima semana, se você quiser, temos o compromisso de repetir "aquele cardápio", mudando o vinho para um de melhor qualidade. Estou com saudades (sonhei novamente). E quanto mais ele tentava juntar pedaços da nossa coleção de fragmentos, mais eu fugia. Hoje não posso, vou sair com as amigas. Hoje não dá, estou com dor de cabeça. Não, não e não. Hoje não é possível. Não é. Não mesmo. - Oi Pestinha! Você é dureza mesmo, hein? Se eu não ligo ou escrevo, você não dá sinal de vida. Penso em você todos os dias e fico com saudade. Quando é que vamos nos ver? Nunca mais. Nunca mais nos vimos. Eu ainda precisava de carinho. Eu vou precisar sempre de carinho. Mas não do carinho em conta-gotas. Não era só os 1,98 dele que não combinavam com meus 1,60. Eram nossas vidas que não combinavam. Uma mulher. Uma filha. Fui me afastando. Nos afastamos. Nunca fizemos sexo. Até nisso fomos fragmento. O projeto acabou e ele não veio mais. Foi ser inteiro em algum lugar. O lugar dele. Mas como as coisas não são totalmente inconseqüentes, um ano depois, ele escreveu. - Lembro com freqüência dos bons momentos que tivemos juntos, dos papos, dos vinhos (nem sempre tão bons assim), dos telefonemas, e-mails, ... Não sei como ele vai lembrar de mim, mas sei que vai. Sou fragmentos na vida dele. E eu, eu também vou lembrar. Ele é todos esses fragmentos no meu texto. Sábado, Dezembro 13, 2003 O melhor da festa é imaginá-la (Fantasia e realidade também se (des)encontram!) Aí por 1995, eu saía com uma colega do pós mais velha do que eu. Todos tínhamos apelidos na turma e ela era A Mãe, então rolava um lance meio edipiano, sexo nota dez. Um dia de semana em que eu sabia que as coisas estariam tranqüilas pro meu lado no trabalho, resolvi porralouquear e pôr o pé na estrada: saí cedo de POA, visitei o Itaimbezinho e voltei no mesmo dia, fazendo um itinerário que deu muito certo; deu tão certo que decidi escrever um texto sobre a experiência. De saída, vi que na hora de escrever não fazia sentido barrar a fantasia: eu tinha passado o dia achando que só faltava a parceria certa pra tudo ficar perfeito, então incluí minha colega no relato. Nós, que nunca andamos juntos pelo mundo, ao menos fizemos esta viagem de um dia na minha ficção. O continho acabou tendo duas versões, e a diferença é que na segunda acrescentei um final erótico, pra "testar a mão". A transa descrita sequer é mentirosa: é uma colagem poderosa de momentos que tivemos de verdade, apenas concentrados em uma dose única. Pois bem. Passaram-se oito anos e mais uma vez tenho uma amiga mais velha do que eu com quem rola um sexo nota dez. Já nem sei quem foi que falou em Itaimbezinho entre nós, mas o fato é que há uma semana tudo calhou e fomos para os campos de cima da serra. Muita coisa mudou de 1995 pra cá: as estradas, os acessos aos parques, os próprios parques, a minha inexperiência na primeira vez, comparada com a experiência de agora, de alguém que ainda em julho deste ano andou por lá com outra namorada, o aumento da preguiça de quem antes fazia continho e agora faz post, quando faz... Desde o princípio, então, estava claro para mim que o fim de semana que planejamos nunca poderia "ser" o dia de semana roubado que vivi sozinho e imaginei a dois há tantos anos. Ainda assim, em vários momentos cedi à tentação de aproximar realidade e ficção, por exemplo quando fiz questão de parar numa barraquinha de beira de estrada, perto de Terra de Areia, só pra tomar suco de abacaxi e comprar puxa-puxa. O resultado final foi bom: vimos lugares lindos, caminhamos bastante, fizemos tremer o chalezinho que nos hospedou em Cambará do Sul... E, no entanto, tem coisas que sempre vão ficar faltando: o abraço de puro bem-querer à beira do canyon, na hora em que começa a esfriar, Itati vista de cima, o ocaso com aves e um poema do Borges, o sexo selvagem começando no elevador...
Pois é, ela ainda tinha de dirigir de volta para o interior, quando chegamos a POA, então nem transamos... E os puxa-puxa melaram. Muitas vezes, o melhor da festa é esperar por ela, mas, às vezes, o melhor é simplesmente imaginá-la. Quarta-feira, Dezembro 10, 2003
01 de janeiro. Depois do jantar de Ano Novo com a família, pego o carro e saio sem rumo pela cidade. Há muito tempo eu não passava o Ano Novo em Porto Alegre e tudo parece muito sem graça. Mas como esse é o primeiro Ano Novo depois da separação dos meus pais, fiquei me sentindo na obrigação de não abandonar o barco, de manter unidos os fragmentos de família que ainda restam. A família... sempre tão importante para mim. Nunca pensei que caminharia sobre os escombros do que um dia eu chamei de lar. World Trade Center. Em segundos, meu mundo desaba. Em segundos, somos as ruínas de nós. Já passa da meia-noite. Enquanto dirijo, ouço foguetes, vejo as luzes nas janelas dos edifícios. As pessoas estão felizes. Por que as pessoas ficam felizes no Ano Novo eu não sei. Poderia ser um dia como outro qualquer. Mas não é. Temos a obrigação de ser feliz. E se isso não acontece, parece que todo o ano será uma merda. Quem mandou não usar a calcinha amarela, não comer as 12 uvas, não pular com o pé direito? E eu sempre fui feliz no Ano Novo. Mas hoje... Confusão sem mistura, acho que realmente estou no momento da queda. Ossip. Meu bar preferido na Cidade Baixa. Por incrível que pareça, o bar não está vazio. Pelo contrário. Evito olhar para as outras mesas porque prefiro não saber que tipo de gente passa o Ano Novo em um barzinho da Cidade Baixa. Realmente, estou perdida em minha consciência crítica. Eu não sou nada, eu sei que não sou nada e essa consciência só me atormenta. Como fui ficar tão só? Onde estão os meus amigos? Tantos amigos... O que estou fazendo aqui, em plena noite de Ano Novo, sentada nessa mesa de bar, tomando vinho, lendo uma revista e esperando o celular tocar (na verdade, torcendo para que ele toque)? Minha vida é mesmo uma comédia estúpida e um melodrama barato. O cara que estava no balcão do bar puxa uma cadeira da minha mesa e já vai sentando. Pergunta se os amigos dele podem se juntar a nós e eu concordo. Eu o conheço da noite mesmo. Acho que o nome dele é Fernando, mas não sei ao certo. Como foi mesmo que eu e o Fernando nos conhecemos? Acho que algum amigo nos apresentou, mas também não tenho certeza disso. - Tá sozinha? A gente pode sentar contigo? Ah, esse aqui é o Rafael. E esse é o Marcos. Tá sozinha? Que tipo de imbecil faz uma pergunta dessas? É óbvio que eu estou sozinha e ele sabe muito bem disso. Se fosse outro dia, qualquer outro dia, eu não teria hesitado em responder com algum comentário irônico. Mas afinal, hoje é Ano Novo, eu realmente estou sozinha e já perdi a esperança de ouvir o celular tocar. Além disso, gostei do Marcos. Alto, cabelo castanho comprido preso por uma faixa preta, tatuagem, calça rasgada e, claro, aquele olhar de desamparo que contradiz todo o visual. Eu sempre tive uma queda por homem com olhar de desamparo. Cazuza grita: "exagerado, jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado. Adoro um amor inventado." Amor inventado. Marcos, será que foi o acaso que te colocou no meu caminho nessa madrugada de 01 de janeiro? Eu bem que estou precisando de um novo amor, mesmo que seja apenas inventado. Um amor para apagar todos aqueles amores frustrados do passado, todas aquelas histórias sem futuro que eu não consigo terminar. Como é difícil pôr um ponto final. Vírgulas, reticências, até ponto e vírgula são mais simples do que o ponto final. O ponto final é drástico, é definitivo. Talvez o Marcos me ensine a usar o ponto final. Talvez ele seja o início de um novo parágrafo na minha vida. Mas o que é mesmo que ele está dizendo? Ah... "sim, Marcos, eu também adoro os filmes do Almodóvar". A turma aumentou. Agora, estamos no Gasômetro, dividindo uma garrafa de champagne e um baseado. Noite linda, céu estrelado, e o meu novo parágrafo conversa animadamente com uma garota de cabelo roxo e piercing no nariz. Olho o Rio Guaíba. Pego o baseado, sinto como se todo o meu corpo se transformasse em fumaça. Sou etérea e flutuo. Ou melhor, acho que não existo. Deito na grama e fico olhando o rio, as estrelas, a lua. Sou tomada por Fernando Pessoa. Vem, Noite antiqüíssima e idêntica, Noite Rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio, Noite Com as estrelas lantejoulas rápidas No teu vestido franjado de Infinito Sol? Luz? Aonde estou? Abro os olhos... uma mesa, uma cadeira, uma garrafa de champagne vazia. Não reconheço nada. Não lembro de nada. Estou semi-nua, na cama de algum estranho. Fecho os olhos porque tenho medo de ver, tenho medo de lembrar. - Hola, mi amor! Hola, mi amor? Inusitado. Insólito. Minha vida é assim. Abro o olho. Mas quem é esse homem de barba, que parece um Che Guevara? Começo a escanear as minhas lembranças até que surge uma imagem, vaga... O chileno. Sim, tinha um chileno no grupo do Gasômetro. Qual o nome dele? Nome? Nome? Nada... talvez ele nem tenha me dito o nome dele. Ele veio participar do Fórum Social Mundial e eu estou no apart-hotel onde ele está hospedado. Ele me oferece café, pergunta se eu quero tomar um banho e me informa que a gente não chegou a fazer nada porque eu simplesmente colapsei. Difícil esconder o meu alívio. Não quero café, não quero banho, não quero nem saber o nome dele! Vou embora sem olhar para trás. Não, esse definitivamente não é um parágrafo novo. Nem todos os anos começam com parágrafos novos. Que pena! Domingo, Dezembro 07, 2003 ![]()
Festa legal. A cabeça não agüenta mais. Um pouco de música e gira, gira... Eu, giro, ela gira, ele gira... O teto pára e depois começa outra vez... Ai, ai, ai... Meu bem você me dá água na boca - umas músicas estranhas estão tocando hoje. Meus bens, tanta água na boca... Festa boa, vamos dançar... Mas com quem? Danço eu e ela. Dançam eles dois. Vale dançar homem com homem? Dançamos os três. Tem gente olhando. Problema deles. Nosso amor é pra olhar mesmo. Vamos montar um show e cobrar ingressos. Nós três juntos e tudo vira beijinhos e abraços sem ter fim... Nós três... E os abraços sem ter fim...E nem sei porque olham, só porque somos três... Lugar legal. Gosto desse bar. Todos tão bem hoje. O Marcelo é o mais bonito, olhão azul. Todos queriam ter olhos azuis, só ele tem. Bom dançar...- vestindo fantasia, tirando a roupa - e essa música, que música é essa? Tô me sentindo um menino. Tão de brincadeira tudo isso. Nossos folguedos... Telefone sem fio! O quê? Telefone sem fio - ela me diz - quer brincar? Nem me lembro. Fala no meu ouvido, eu falo no ouvido dele , ele fala no teu ouvido e ficamos falando baixinho... e rimos muito, mais rimos do que falamos... a gente sempre ri demais. Poderíamos fazer uma suruba se a gente não risse tanto... Tudo bem , sem suruba, apenas nosso riso... Tudo tão amoramoramor... Telefone sem fio. Fala baixinho. Primeiro amor, i love you, forever; depois gostosa, te beijo, tua boca, tua bunda... Nós três tão i love you e depois do telefone só as nossas deliciosas baixarias... E a gente sempre ri nessa hora - estou com tanto tesão - e rimos adoidado da nossa travessura. Todo mundo olhando. Que saco, nunca viram um casal e mais um? Somos um casal e mais um. Só isso! Sono. Amanhã trabalho cedo.Vamos embora. Tanto sono agora. Preguiça.A conta, baratinha, os três só na coca-light. Só na coca-light e tanta maluquice. - Nós somos malucos, somos as pessoas que dizem sim, nós somos os que querem ver o circo pegar fogo - a Débbie fala isso. Morro de rir. Que circo? Nós três botamos fogo na cidade inteira. Só na coca light e tão malucos. Tá friozinho. Pega o edredon - ela pede com aquele jeitinho. Ela é linda, amanhã vai fazer uma tatuagem. Diz que vai ter coragem. Só quero ver , minha linda de tatuagem. Ela quer um abraço antes de dormir. A Débbie pede um abraço, ela quer uma abraço antes de dormir. Vai ganhar dois. Bom ter dois namorados que se adoram, não? ME TIRA DESSE BLOG..... ![]() Há dez anos ele tentava escrever o primeiro verso de um poema. Era perfecionista. Aos 30, anteontem madrugada, gritou para a mulher: consegui, Jandira! Consegui! Ela ( sentando-se na cama, desgrenhada) O quê? O emprego? Ele Claro que o verso, tolinha, olha o brilho do meu olho, olha! Ela (bocejando) Então diz, benzinho. Declamou pausado o primeiro verso: ¿Igual ao fruto ajustado ao seu redondo...¿ Jandira interrompendo: peraí... redondo? Mas nem todo o fruto é redondo... Ele São metáforas, amor Ela Metáforas?!?! Ele É... E há também anacolutos, zeugmas, eféreses. Ela ?!?!? Mas onde é que fica a banana? Ele enforcou-se manhãzinha na mangueira. O bilhete grudado no peito dizia: a manga também não é redonda, o mamão também não, a jaca muito menos. E você é idiota, Jandira. Tchau. Ela ( tristinha depois de ler o bilhete) E a pêra, benzinho? E a pêra então que ninguém sabe o que é? E a carambola!!!! E a carambola, amor! Acho que a Hilda Hist escreveu esse texto pensando em mim, só pode ser... Ela sabe o medo que eu tenho de acordar ao lado de uma Jandira. Ela sabe o medo que eu tenho... Cruz credo! Ator-apresentador-locutorsolteiro-artista está pensativo em frente ao computador. Macy gray canta sua SEXUAL REVOLUTION. É domingo, ele odeia esse dia. Dia idiota para pessoas idiotas. Inclusive você - diz a ele a voz estridente de sua inconveniente consciência. Consciência estúpida sem qualquer serventia na hora de aumentar sua conta bancária. Macy insiste na SEXUAL REVOLUTION. Where, Macy, where? - ele grita. Grita com tanta vontade que a tela do computador fica cheia de gotículas de cuspe. Mais interessante assim. Macy segue cantando e nem sequer sabe que ele existe. Ator-apresentador-locutorsolteiro-artista pensa nas suas duas pessoas. Duas. Apenas duas. O mundo modernete acha demais: duas. A não ser que uma não saiba da outra e a outra não saiba da uma e ele finja que não sabe de nada. O mundo modernete é de uma complexidade... E por isso ele não pode ter as suas duas pessoas consigo ao mesmo tempo sem ser o maior cafajeste-filho-da-puta-desgraçado que já nasceu. Ele pensa em telefonar para uma de suas pessoas. Tem que escolher uma. Damn it. SEXUAL REVOLUTION - canta outra vez macy Gray. But not here in my life - ele responde. Ator-apresentador-locutorsolteiro-artista desliga o computador. Cala a boca, Macy Gray! - ele resmunga entre dentes. Ator-apresentador-locutorsolteiro-artista não telefona para ninguém. Talvez se masturbe mais tarde e vá dormir sozinho. OK. It's a reality show! Sexta-feira, Dezembro 05, 2003
Ciranda, cirandinha, o amor foi cirandar. "Ciranda, cirandinha vamos todos cirandar vamos dar a meia volta volta e meia vamos dar o anel que tu me deste era vidro e se quebrou o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou" Uma semana antes, nós dois caminhando lado a lado naquele parque e ele admitiu que namorar a minha melhor amiga tinha sido um golpe baixo, uma vingança estúpida. Por isso, também me desculpava por eu ter dado o troco e engatado um namoro com o melhor amigo dele. Mas agora, nós dois livres novamente, não poderíamos mais escapar ao magnetismo cósmico que insistia em aproximar nossos corpos. Feitos um para o outro. Nós dois. Lembrei de um dia no elevador do prédio dele. Ele tinha terminado comigo para voltar com a namorada anterior. "Ele é muito volúvel, ele não presta", já tinham me alertado. Nunca dei bola pra isso. Gosto de homem "que não presta", que tem um jeito malicioso e cara de malandro! E naquele dia, eu indo visitar a colega que tinha nos apresentado, encontro com ele no elevador. Freqüentando o condomínio, eu já sabia que esse encontro seria inevitável, que era somente uma questão de tempo. Um mês. Foi esse o tempo. Eu já tinha preparado o ar blasé de quem está arrasada por dentro, mas finge que tudo não passou de um pequeno dissabor, apenas mais um de muitos casos insignificantes. Homens como ele gostam de ver o estrago que causaram. Homens como ele não suportam a indiferença. E lá estava eu, personificando a tal indiferença. Sorriso, três beijinhos, como está a vida?, lembranças à namorada. Ele tranca o elevador entre dois andares e diz que estou linda. Diz que eu sou um vício. Me beija. "Acho que vai ser assim para o resto da vida. Essa química entre nós. E sempre que eu te encontrar, vou querer repetir esse momento". Simples assim. Aperta um botão e o elevador volta a subir. Isso foi no início do namoro. Muita coisa aconteceu até o momento em que caminhamos lado a lado no parque e ele quis resgatar nosso passado. Feitos um para o outro. Nós dois. Vontade de esquecer o orgulho e dizer "sim, sim, eu ainda te amo". Mas eu não disse isso. Eu disse esquece. Me esquece. E naquele momento, ignorei a ciência e sepultei a química. Maldita química! Mas isso foi uma semana antes. E então, estou no Fim de Século, sem amor e sem voz. Pois é. De vez em quando, inexplicavelmente, a voz também me abandona. Nem ela consegue ficar comigo por muito tempo. Minha própria voz. O Fim de Século lotado. "Oh, oh.. ohhhh your city lies in dust, my friend". E no meio de tantos clones de Robert Smith e Ian McCulloch, surge aquela figura de terno cinza e chapéu-côco na cabeça. Se existe amor à primeira vista, só pode ser isso, só pode ser assim. O coração descontrolado. O coração em pânico, tentando escapar pela boca como se fosse coração de desenho animado, também ele querendo fugir de mim. Minha amiga ao lado, concentrada em seu monólogo. Minha amiga satisfeita com respostas não-verbais. Preciso disfarçar! Como disfarçar? Meu olhar encontra os espelho. Os espelhos do Fim de Século, espalhados por todas as paredes, por todos os cantos, como um quarto de motel. De fragmento em fragmento, o acompanho pelos espelhos. Pelos espelhos, nossos olhos se cruzam. Ele também me segue pelos espelhos. Nos reflexos, vemos nosso amor surgir. Ele vem. Minha amiga explica que a voz me abandonou. Mas não precisamos mais falar. Rendido, o coração se entrega ao inimigo. Três anos e meio depois, "ciranda, cirandinha. o anel que tu me deste era vidro... o amor que tu me tinhas era pouco...". Três anos e meio depois, quebraram-se todos os espelhos. Isso talvez explique o azar que até hoje eu tenho no amor. Segunda-feira, Dezembro 01, 2003 Já no primeiro dia de aula nós nos aproximamos. Ele chamava a atenção. Alto, elegante e careca, totalmente careca. Era inteligente, sensível e educado. O que mais uma mulher espera encontrar em um homem? Nossa relação se estabeleceu entre a amizade e o flerte. Mas logo ele começou a faltar às aulas. Internado para tratamento. E ele virou espírita, freqüentou centros de umbanda, fez tratamento nos Estados Unidos. A luta que ele travava pela vida e sobre a qual havia um silêncio tácito não podia mais ser ignorada. Estava cruelmente presente na ausência dele. O episódio que narro aconteceu pouco tempo depois de ele ter voltado dos Estados Unidos. Ele estava bem, otimista. E eu, arrasada. Tinha terminado um namoro longo, um desses relacionamentos a distância em que a gente acha que está vivendo uma história de amor especial para, no fim, descobrir que nunca teve nada, nenhuma história e muito menos um amor. Comentei que queria um amante e perguntei se ele não tinha nenhum amigo para me apresentar. Falei algo sobre uma Lista B, mas nem lembro o que eu queria dizer com isso. Ele respondeu por e-mail: "Em relação a tua outra afirmativa: -Tenho várias coisas a dizer. Primeiro, não sei o que significa lista B. Segundo, para esse cargo tenho interesse. Beijo PS: me explique melhor no sábado. Bem melhor!!!!" Primeiro, fiquei perplexa, realmente surpresa com a resposta. Depois, levei tudo na brincadeira. No mesmo dia, saí com colegas do curso. E nas conversas, descobri que ele mantinha relações de amizade e flerte com todas as meninas da turma. Também descobri que ele tinha uma namorada, uma mulher bem mais velha, por quem ele não tinha mais nenhum sentimento, mas com quem jamais terminaria. Como se fosse o pagamento de uma dívida, por ela gostar e cuidar dele na saúde e, acima de tudo, na doença. E finalmente foi sábado. Último dia de aula. Ele estava lá. Eu tremi. Mas a aula foi passando sem que tivéssemos oportunidade de conversar. E a aula terminou sem que nada fosse dito. Peguei meu carro e saí. Ele veio atrás, dando sinal de luz. Parei. Ele parou ao lado. Queria detalhes sobre o cargo. Sorri. Fomos para minha casa acertar os termos de nosso relacionamento amoroso. Eu e meu futuro amante. - Tudo bem, só não pensa em te apaixonar por mim. Todas se apaixonam por mim, estou cansado disso. Que pretensioso! Fiquei irritada com o comentário. Mas não perdi a chance de mostrar que sou uma mulher diferente, uma mulher de atitude, uma mulher que sabe o que quer. - Não te preocupa. Eu nunca me apaixono. E por ti, não me apaixonaria mesmo. Ele respirou aliviado, o que aumentou a minha raiva. Então, em nome da nossa amizade e de uma tal sinceridade que eu tinha em excesso na época, acabei dizendo que não me apaixonaria por ele porque ele era uma decepção. E usei aquela frase clichê que toda mulher deveria ser proibida de usar: - Eu achei que tu fosses diferente. Diferente dos outros. Eu realmente achei... Ele não pediu explicação. Ele sabia o que eu queria dizer. Eu também não expliquei. Ele sabia bem do que eu estava falando. E assim, ele foi embora. Dezembro de 1999. Não esqueço. O último dia em que fomos amigos. Ele foi embora sem me dar um beijo. Nunca nos tornamos amantes. As aulas recomeçaram e ele não apareceu. A doença, as internações cada vez mais freqüentes. Ele não tinha mais condições de acompanhar o curso. Paulinho Moska tocando direto no meu ouvido. "Meu amor, o que você faria, se só te restasse esse dia?" Maldita mania de julgar os outros pela minha ética. Demorei a entender que ele só estava querendo viver. Viver tudo o que fosse possível. Viver amores vis e inconseqüentes, amores breves como a vida dele. O prazo de validade dele estava expirando, ele sabia disso. "Me diz o que você faria. Ia manter sua agenda de almoço, hora, apatia?" Ele precisava viver. Precisava aproveitar. A vida. Tão curta. Fiquei sabendo da morte dele uma semana após o enterro. Desencontros. Não fui à missa. Não rezei por ele. Não chorei por ele. Apenas escrevi meu pedido de desculpa. Inútil. Ele nunca soube, ele nunca vai saber. Acho que escrevi para mim. Como sempre, escrevo para mim.
Carta Não interessa como ou quando, mas um dia, nós nos conhecemos. Tu tinhas a cor amarelo-ocre de uma imagem esquecida do passado. Naquela época, a tua sentença já estava decretada. E eu não te entendia. Eu jamais te entendi. Acendeste uma vela para cada santo, acreditaste em todas as religiões e em todos os milagres. E nos meus olhos descrentes, buscaste encontrar fé e esperança. Mas eu ainda não te entendia. Eu jamais te entendi. Um dia me pediste o conforto de um amor sem compromisso. Querias só uma aventura. Querias sentir tudo o que para nós é a essência da vida. Mas eu te mandei embora porque eu não te entendia. Eu jamais te entendi. A tua partida foi triste. Um último abraço, um último olhar. A minha decepção fundida no teu desalento. Adeus, meu amigo, adeus. A tua partida foi triste. Nenhum abraço, nenhum olhar. O meu desespero agarrado à tua indiferença. Hoje eu te entendo, mas é inútil. Hoje já é muito tarde. A procissão segue teu corpo. Eu permaneço imóvel. Adeus, amigo, adeus. "A dreaded sunny day, so I meet you at the cemetery gates." (Cemetery Gates, The Smiths) |
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