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Histórias de encontros e desencontros.


Sexta-feira, Janeiro 23, 2004
 
Amores Líquidos



Só a luz da vela ilumina meu rosto. A noite está silenciosa como a noite. Nenhum ruído além do tic-tac do relógio. O relógio, algema do tempo. O relógio, invenção cruel. Christian Huygens inventou e produziu o relógio de pêndulo. Dizem que também foi ele quem inventou de dividir as horas em 60 minutos e os minutos em 60 segundos. Os homens sempre inventam uma forma de nos torturar. O telefone também foi inventado por um homem. E agora, Sr. Graham Bell, de que me serve esse telefone que não toca? Meu coração espera que ele chegue, meu ouvido espera que a campainha toque, mas meu olhar desiludido fica preso na distância entre o relógio e o telefone. Acho que ele não vem. O relógio. Ele já deveria ter chegado. O telefone. Talvez ele ligue pra dizer que está atrasado. O relógio. Já é tarde. O telefone. Será que ele não vai ligar nem ao menos pra dizer que não vem? O relógio. O telefone. Ele não vai ligar. O relógio. O telefone. O relógio. Ele não vem.

Só a luz da vela ilumina meu rosto. Inevitável pensar em outros amores. Então ele se apaixonou, ele finalmente se apaixonou por alguém. Nós ficamos anos juntos e ele nunca se apaixonou por mim. Eu sempre achei que um dia, quando já fosse tarde demais, é claro, ele descobriria que sempre me amou, que me amou sem saber. Mas não, ele finalmente ama, e ela não sou eu! Até ele, até ele ama. O que eu sinto não é tristeza, o que eu sinto é uma quase-melancolia. Ele, que é frio e insensível. Ele, que não entende o que é entrega. Até ele ama e é amado. Enquanto isso, esse mesmo amor segue escorrendo por entre meus dedos. Um atrás do outro. Amores que 60 segundos chovem e no segundo seguinte já estão secos. Amores que não aparecem pro jantar. Amores tão irrelevantes que amanhã eu já nem vou lembrar. É verdade, amanhã eu não vou lembrar. Mas hoje, hoje eu fico sufocada por tudo isso. Hoje eu me sinto só. Hoje... só a luz da vela ilumina meu rosto. O telefone. Eu e meus pensamentos. O relógio. Eu e meus amores líquidos.





Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
 
E eu fiquei ali, olhando ele fazer as malas. Queria dizer não vá. Queria dizer por favor, não vá. Mas não. Fiquei sentada, muda. E o armário foi ficando cada vez mais vazio. A casa, cada vez mais vazia. Nem eram tantas coisas assim. Mas era mais, ele levava muito mais que coisas. Levava meu amor destruído. Levava nossa vida em comum desfeita. Levava os filhos que nunca tivemos nem nunca vamos ter. E no meu desespero, e na minha tristeza, não consegui chorar. Ele deve ter achado que era indiferença. Não era. Eu só queria não acreditar, ou acreditar. Ah... eu nem sei o que eu queria! Mas eu queria. Eu queria que ele desfizesse a mala. Eu queria que ele desdissesse o adeus. Só que eu não disse isso pra ele. Eu não disse nada. Nem ele. Silêncio. Só o barulho de parte da nossa vida jogada em uma mala. Fiquei impassível. Fiquei sentada vendo ele partir. E ele foi.



Era como uma hipnose. Aquela música tocando e tocando e tocando e tocando infinitamente. Aquela música. "Eu me recuso a repetir os erros que comentemos ontem." E eu repetindo. "Eu me recuso a repetir os erros que cometemos ontem. Eu me recuso a repetir os erros que cometemos ontem. Eu me recuso a repetir os erros que cometemos ontem." Um mantra na minha cabeça. Mas era tarde. Eu já tinha repetido os mesmos erros de ontem, de sempre. Eu já tinha deixado ele partir.




Terça-feira, Janeiro 13, 2004
 


Acordei feliz! Ela estava ao meu lado! Tão gostosa a noite passada...
Ai... se um dia ela for embora...
Dava até um nervoso só de pensar.
Queria tê-la para sempre.
Olhei para ela dormindo ao meu lado e escrevi todo o meu amor num bilhete.
O bilhete era assim:

"Meu amor, se você for embora
eu te dou uma surra
até você cair no chão e não ter forças para me deixar.
Se você falar em fugir,
eu te amarro na cama,
te prendo com algemas,
amordaço tua boca,
acorrento teus pés...
Se você um dia pensar em ir com outro
eu ponho um sonífero na sua água,
se ainda assim você pensar nisso,
eu ponho uma droga na sua bebida,
obrigo você a cheirar clorofórmio, benzina, morfina.
Se você insistir, meu bem,
eu dou um soco na sua cara, eu arrebento seus dentes, deixo seu olho roxo.
Se você disser que vai me deixar,
eu quebro suas pernas,
raspo seus cabelos,
te dou choques elétricos,
te ponho no pau-de-arara,
te afogo na banheira,
meu amor, se você quiser me abandonar...
Eu te dou um tiro de revólver,
de metralhadora,
eu boto uma granada debaixo do seu travesseiro
se você quiser me deixar!
Sem você eu sou só força sem fé,
sou um grito sem voz,
um conteúdo sem forma!
Sem você, meu amor, eu sou só um grandão besta que não sabe viver,
um grandão que perto de você é menino assustado,
é olhos tristes,
frio na barriga, coração gelado só de pensar...
Só de pensar que um dia você pode ir embora"

No dia seguinte ela partiu.
Nunca mais falou comigo.
Foi na delegacia e registrou uma queixa contra mim.
Ameaça de morte, ela disse...
Putaquepariu - cada mulher insensível nesse mundo.





Sexta-feira, Janeiro 09, 2004
 
O Final de Ano que Thaís viu
e flashes do que ela não viu


Thaís viu um bom natal: a casa arrumada, a mesa posta (olha o Bandeira aí de novo!), pessoas comportadas e um clima bom no ar. Depois, viu o Larus botando gente pelo ladrão e os belos reencontros vividos a despeito da confusão: Claudinha, a Parceria (que ainda será personagem deste blog!), o Dé e o Cordeirinho. Viu-me também comportado ao lado da Dani, a namoradinha: ia e vinha, mas sem perder a compostura nem deixar de dar-lhe o mínimo de atenção.

Dia 27 chegou a primeira Prima dela e Thaís e eu vimos com surpresa ela e o amigo Cachinhos se entenderem a ponto de se desentenderem. Encontraram-se apenas para se desencontrarem. Triste. O que Thaís não viu foi Cachinhos comigo no Palito, pedindo-me sinceridade e perguntando-me se o Macaco tinha ficado com a Prima. Pura paranóia que pôs tudo a perder.

Não sei bem quando, fomos a um bar e Thaís me viu, com certa preocupação, aguar a plantinha de Tertius Quid justo no momento em que Dani chegava. Foi tudo bem: Tertius tem maturidade e discrição de sobra e eu estava comportado, apesar das mui tentadoras novas Primas que Thaís apresentou. O que ela não viu foi o final da festa: Dani bebinha tendo uma crise de choro, só porque reclamei do enésimo cigarro, e Cachinhos tão cavalheiro, emprestando-lhe o lencinho com suas iniciais bordadas e deixando-nos em casa, onde fizemos a única coisa que nos restava: o bom e velho make-up sex.

O Beijo, de Rodin

Dia 30, começamos a comemorar meu aniversário, que é dia 31. À meia-noite, sentado ao lado da Mamma da Thaís, soprei a vela colocada sobre a torta que elas trouxeram, carinho de velhas amigas. Já na madrugada, fomos ao Gaveta Musical, legítimo boteco, reduto do samba, onde canta uma irmã da Parceria. Paguei o mico de um parabéns cantado pelo bar inteiro, mas tudo bem. (Não lembro se Thaís viu isso, ou se já tinha tirado o time de campo.) O lado ruim foi de manhã, quando Dani acordou vestida ao meu lado e se mandou pra casa. Eu tenho pavor deste lance de ser abandonado. Acho que foi aí que meu humor começou a virar um mau humor, que só piorou, quando ela passou a tarde me ligando, não me deixando dormir, porque queria ir a uma festa de reveillon a que eu já lhe havia dito que eu não iria.

Vai daí, Dani e eu já tínhamos um clima ruim armado para a virada do ano e, inevitavelmente, só nos desencontramos. Felizmente, há mais gente boa no mundo: Thaís, uma Prima, Cachinhos e eu fizemos a festa possível dos sem-reveillon, o que incluiu o pacto de que veríamos juntos o primeiro sol do ano levantar-se do Atlântico, a despeito do vento frio que nos mandava o pólo. Depois do amanhecer, ainda ficamos um tempo juntos, acho que de puro bem-querer, e a Prima até tirou um soninho com a cabeça apoiada no meu colo, enquanto eu lhe fazia um cafuné já completamente inocente a estas alturas. O que Thaís não viu, num dos meus momentos mais ridículos nesta virada de ano, foi a minha cara de trouxa sem cura, falando ao telefone com Lígia sobre seus cachorros às nove da manhã do dia primeiro.

A maratona não parou por aí: à tardinha do dia primeiro, um brinde propiciatório com Thaís, que também foi minha despedida da Mamma dela, e lá fui eu para o sítio do Doutor, o Ialuaretê do Petrolini, comer uma ovelha. Thaís obviamente não viu, mas a verdade é que conseguimos repetir o clima bom do natal, todo mundo comportado, e desta vez com a presença do Pedro, primeiro neto do Doutor, guri esperto que passou a noite caçando sapos! Este vai dar bom!

Madrugada do dia dois, de volta ao Larus. Logo na porta encontro Dani, digo-lhe que sei que está chateada e que acho melhor conversarmos, mas ela me ignora. Vou adiante e o destino joga com mão pesada: reencontro Nara! Digo-lhe o que já escrevi neste blog, que seus olhos são dois oceanos não-pacíficos. Voltamos no tempo, voltamos ao bem-querer. Eu sei que já bebi demais, eu sei que não devemos ficar juntos nesta madrugada e lhe digo, mas, de repente, tudo se vai al cuerno e saímos juntos. Pela segunda vez, tudo dá errado entre nós. De lá pra cá, tenho andado sozinho e triste. E Thaís nem está mais aqui pra ver.

O Navio, de Dalí






Quinta-feira, Janeiro 08, 2004
 
"É inútil fingir,
Não te quero enganar,
É preciso dizer adeus
É melhor esquecer,
Sei que devo partir,
Só me resta dizer adeus
Ah, eu te peço perdão,
Mas te quero lembrar,
Como foi lindo,
O que morreu"




Cry me a river

Do tipo galãzinho de novela: cabelos longos, olhos azuis, corpo malhado. Os olhares de mulheres e homens sempre se voltavam pra ele. Fazia sucesso, o meu amigo ator. Mas não pelo talento que, cá entre nós, nem era tanto. Era algo mais que ele tinha e eu nunca soube ao certo. Até hoje, ainda não sei. Carisma, talvez. Ou seriam aqueles olhos azuis? Olhos de quem chora um oceano a cada decepção. Nos conhecemos por acaso e ele foi logo se inserindo na rotina familiar. Chegava lá em casa com toalha de banho e roupa pra trocar, abria a geladeira e já ia fazendo um sanduíche com os ingredientes que encontrasse, se convidava pros almoços de domingo, pros aniversários dos primos e até pras festas de fim de ano. Se instalou assim na minha vida. Não fez qualquer cerimônia, foi simplesmente invadindo meus espaços.

A festa era em uma mansão no Moinhos de Vento, um dos bairros mais charmosos de Porto Alegre. Ele insistiu pra eu ir. Só entra com convite. Festa VIP, ele me disse. Eu gostava mais das festas underground, dos lugares caindo aos pedaços, paredes pichadas e porta de banheiro que não fecha. Mas como dizer não quando ele olhava assim, aqueles olhos azuis como se fossem chorar um oceano se alguém os decepcionasse? Acho que ninguém conseguia dizer não. Eu não consegui dizer não. Antes de sair, um assalto básico ao bar da casa. Tequila, caipirinha, cerveja. Já chegamos bêbados. E tinha fila, uma fila de não se ver o fim, uma seqüência infindável de impacientes sapatos de verniz e sandálias de salto. Meu sapato velho e opaco olhou pra mim e disse que se recusava a entrar naquela fila. Meus sapatos têm vontade própria. Meu sapato velho e opaco determinou que a gente fosse embora.

Quando entramos no carro, ficou evidente que ele não tinha condições de dirigir. Entrou na contramão já na primeira rua, ignorou um sinal de PARE na segunda e na terceira, quase subiu no meio-fio da calçada. Assumi a direção. "Me deixa em casa. Passa a noite lá.", ele pediu. Ele sempre me convidava, mas eu não ia. Ele nunca antes convidou olhando nos meus olhos. Dessa vez eu fui. Impossível dizer não. Aqueles olhos azuis grudados em mim como se fossem chorar um oceano se eu os decepcionasse.

Do resto da noite, me lembro pouco. Nós dois pulando na cama de casal. Eu não conseguindo dormir direito. O sonho em que eu e meu amigo ator tínhamos uma noite incrível de sexo quase selvagem. O sonho, que pra mim tinha efeito de um pesadelo. Depois, o despertador. O beijo dele. Palavras sussurradas no meu ouvido. Era sábado e ele tinha aula. "Fica dormindo. Eu volto com o café."

Eu estava sentada na poltrona da sala, ouvindo música, quando ele chegou com o café. Lembro dele falando, falando, falando muito. A minha cabeça doendo. Ele falando da nossa noite de sexo. E eu, perplexa. "Então não foi pesadelo, nós realmente fizemos sexo essa noite!" Ele querendo repetir a dose. "Eu tô sem camisinha, mas posso ir até ali a farmácia. Vamos?" Eu sofrendo com a ressaca. "Eu tava bêbada." Ele insistindo. "Vamos?" Aqueles olhos azuis outra vez. Mas eu não podia. Não dava mesmo. Comecei a rir. Riso nervoso. Amanhã, nós vamos olhar para o mesmo homem. Amanhã, ele vai beijar outro homem na minha frente. Amanhã, ele vai me contar histórias de ex-namorados. Os olhos azuis grudados em mim... Eu não consigo. Eu não posso. Os olhos azuis... Ele é gay. A cabeça latejando e essa frase se repetindo e se multiplicando. Ele é gay. Ele é gay. Os olhos azuis grudados... Matemática errada. Eu e ele não formávamos um nós.

Deixei meu amigo chorar um oceano.





Sexta-feira, Janeiro 02, 2004
 
Cotidiano

"Todo dia ela faz tudo sempre igual
me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
e me beija com a boca de hortelã"


Sempre gostei de acordar cedo e ficar vendo ele se arrumar para o trabalho. A cuidadosa escolha da roupa - camisa, gravata, sapato social e terno Hugo Boss. Depois o banho, que ele tomava enquanto eu preparava o café. Em seguida, o barulho do barbeador elétrico, o creme pós-barba, o perfume Calvin Klein. A mesa do café já pronta, só esperando por ele. Suco de laranja, torradas, cereal com leite, iogurte, café preto passado. Não falávamos nada. Entrelaçávamos as pernas por baixo da mesa e ele abria o jornal. Eu gostava desses momentos silenciosos, sempre quebrados pelo ritmo irritantemente compassado do relógio. O tempo a exigir submissão. E nós nos rendíamos. Nós sempre nos rendemos ao tempo. Alguns minutos escovando os dentes e, então, ele partia. Números, planilhas, gráficos. A vida dele era estressante. Os clientes pressionando. O chefe de equipe pressionando. O relógio pressionando. Eu, cigana, sem regra e sem rumo, sem compromisso e sem relógio, caminhava por ruas desconhecidas, almoçava no Green Park, visitava museus e voltava para a casa contornando o Tâmisa.

O apartamento de Londres ficava em Vauxhall, a poucos passos do metrô e às margens do Tâmisa. Praticidade e elegância. Nada combinava mais com o estilo de vida de um jovem analista financeiro do que aquele apartamento. Os amigos, jovens executivos também. No final do dia, happy-hour, brindes com champagne e comentários sobre a bolsa de Tóquio. Nada combinava menos com o estilo de vida de uma estudante brasileira, sempre economizando centavos, do que aquele apartamento. Eu não conhecia ninguém, então conversava com pessoas anônimas, turistas, desocupados, desempregados. Eu não tinha nenhum glamour.

Para quebrar a rotina, é preciso ter uma. Essa era a nossa rotina. Funcionava bem, mas um dia se quebrou. Não resistimos ao tempo. Eu voltei para o Brasil e arrumei um emprego. Ele ficou em Londres e pediu demissão. Nós sempre fomos opostos.






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