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Histórias de encontros e desencontros. Domingo, Fevereiro 29, 2004 O beijo Quando me apaixonei por ele pela primeira vez, eu tinha 14 anos e não sabia beijar. Era verão e eu estava na praia de sempre. Passei por ele na Avenida e soube imediatamente que um dia eu beijaria aquele homem. Fiquei surpresa quando me contaram que nossa turma era a mesma, que íamos nos mesmos lugares. Eu nunca tinha notado. Mas depois daquele dia, foi impossível não notar. Ele jogando vôlei. Ele surfando. Ele tomando chimarrão. Ele passando de carro. Ele dançando. Ele sorrindo. Ele na praia. Ele na rua. Ele na noite. Ele. Ele. Ele. Uma obsessão. Na primeira oportunidade que surgiu, agarrei um menino qualquer. Meu primeiro beijo não foi um beijo, foi um treinamento. Eu precisava estar pronta. E beijei um. E beijei outro. Até arrumei um namorado. Mas nada dele me notar. Até que um dia ele me viu. Ele estava em uma roda com os amigos e eu caí de bicicleta na frente deles. Todo mundo riu. Saí machucada e humilhada. Mais humilhada do que machucada. Foi no Carnaval que ele me puxou pela mão e saímos dando volta no salão do clube. Depois, perguntou se eu não queria cheirar lança-perfume. O tão esperado beijo aconteceu no sofá da casa dele. Eu mal sentia meu corpo. Tudo parecia tão irreal! A mão dele tentava avançar espaços além da boca. Entrei em pânico. Eu não tinha treinado aquilo, eu não estava preparada. Diante da minha resistência, ele desistiu. Voltamos ao baile e no meio da primeira volta no salão, me jogou nos braços de um amigo e desapareceu. Voltei a vê-lo mais tarde, agarrado em uma mulher do tipo que faz qualquer um perder o fôlego, até mesmo eu! O ano passou e eu virei uma adolescente estranha. Só me vestia de preto e fazia visitas freqüentes aos cemitérios da cidade. Para cada um dos mortos eu inventava uma história, imaginava suas dores e aflições. Abandonei meu romantismo e mergulhei na poesia simbolista de Augusto dos Anjos. "Sou uma Sombra!" Tive alguns namorados, mas nada sério. Eu era estranha. Então veio o verão seguinte, a turma da praia voltou a se reunir e ele ressurgiu no meu universo, como um fantasma. Lá estava ele na praia, ele na rua, ele na noite. Lá estava ele, tão bonito quanto a imagem que eu guardava na memória. Só que dessa vez, tudo nele me irritava. O estilo fútil de vida, a irresponsabilidade, aquele jeito inconseqüente de playboy namorador. Não abandonei a turma da praia, mas fiquei um pouco menos constante. Arrumei outros amigos e freqüentei outras festas. Um dia, lá pelo final do veraneio, ele sentou ao meu lado no muro do edifício em que todas as tardes a turma se reunia. Era cedo e nós éramos os primeiros a chegar. Passou a cuia do chimarrão pra mim e puxou conversa. E isso se repetiu nos dias seguintes. Quando eu me apaixonei por ele pela segunda vez, eu tinha 15 anos. Ele tinha um jeito irresistível de não levar a vida a sério e um charme de playboy. O segundo beijo aconteceu no sofá da casa dele. Tudo parecia tão irreal e tão igual. A mão dele tentava avançar espaços além da boca. Dessa vez, deixei as carícias evoluírem. E foi no meio dessa evolução que alguns de nossos amigos apareceram na sala. A chegada deles não tinha sido uma casualidade, uma fatalidade. A chegada deles tinha sido planejada. Eu era uma aposta. "O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja." Não me senti humilhada. Saí de lá com a cabeça erguida, recitando pra mim mesma a última estrofe dos meus versos mais íntimos. "Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!" Então, o veraneio acabou. Voltei pra capital e na primeira oportunidade fui ao cemitério. Comprei um buquê de rosas vermelhas e caminhei entre túmulos até encontrar o de um rapaz com o mesmo nome e idade dele. Ali, depositei minhas rosas. Nunca mais freqüentei cemitérios. Nunca mais recitei Augusto dos Anjos. Nunca mais me apaixonei por ele. ![]() Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004 Quarta-feira de Cinzas Nem sempre a gente precisa ter interesse por Biologia e ser leitor de S. J. Gould (entre outros) para apreciar a importância das bactérias -- mais das vezes, basta ser atacado por elas. Então: a rigor, meu Carnaval não chegou à Quarta-feira de Cinzas, porque minha Terça-feira Gorda já foi de recuperação do baile de segunda e resguardo. Pela lógica e até pra começar a criar uma tradição neste blog, este post poderia chamar-se "O Carnaval que Thaís viu / e flashes do que ela não viu". O problema é que, à diferença do Final de Ano, não houve nada relevante que ela não tenha visto. Aliás, posso dizer que, grosso modo, executei meu plano de Carnaval sem que nada espetacular e imprevisto acontecesse, nenhum encontro ou desencontro marcante. Vai daí, deixo a bola com Thaís: se ela quiser contar algum causo de Carnaval, muito bem-vinda; o meu já está acabado desde ontem. Hoje sinto que, mesmo sem o socorro da amoxicilina, começo a ganhar a guerra contra estas bactérias oportunistas. Levanto, então, bem cedo, preparo um mate, companheiro indispensável nos momentos de algum esforço intelectual, e trabalho com cuidado no primeiro rascunho de um questionário que estava devendo a um amigo. Depois, feito um vampiro tímido, arrisco uns minutos de sol na praia e vou ao supermercado abastecer o apê depauperado no curso da folia. À tarde, caminho até a lojinha pra buscar umas fotos e pegar um sorvete ao lado. Agora me repito: mais uma vez tenho como vista as mesmas ruas de areia batidas a vento e novamente a trilha sonora é Piazzola e Mulligan -- talvez Borges dissesse que sou um labirinto circular, com passagens que conduzem ciclicamente a certos pontos críticos. O vento hoje virou de Sul para Nordeste e me fez pensar nas terras em que os ventos têm nome: o Simum do Saara, o Mistral de França, o Minuano da Campanha: que há com minha gente? Pecam por falta de imaginação ou já conquistaram a simplicidade, reconhecidamente o último degrau da sabedoria?
Foto do Meteosat em 07/01/2002 mostrando um vento Calima quente e úmido soprando uma pluma de poeira sobre as Ilhas Canárias. Sábado, Fevereiro 21, 2004 Pré-Carnaval Termino de ler "Nature's Magic", de Peter Corning, cujo último capítulo trata de nossa (in)capacidade de prever o futuro. Em resumo, ele diz que o futuro é imprevisível e sempre será, mas que mesmo assim devemos fazer planos. O amanhã é imprevisível, hoje é sábado de Carnaval e eu faço meus planos. Ligo pra Thaís, presa no calor de POA. Digo-lhe que tenho um quarto vago e ela aceita o convite. Vou esperá-la no ponto de ônibus com os convites pra folia na mão: esta noite chega minha amiga, minha cúmplice! Cachinhos bate-me à porta de surpresa. Fico meio sem jeito, porque fiz coisas que ele não pode saber e mentir e dissimular não são o meu forte. Verifico que ele não sabe, relaxo e ponho os devidos band-aids na nossa amizade. Ele fica feliz e promete voltar à noite, antes de sairmos pro baile. Sinto fome, muita fome. Decido cozinhar esta noite. Saio por estas ruas de areia batidas a vento (este vento não pára; este vento só vai parar em abril!) e vou comprando os ingredientes que me faltam. Caminho feliz: cada vez que inspiro mais forte, entra-me pelas narinas o cheiro delicioso que me ficou no bigode da boceta que chupei esta manhã. O futuro é incerto, mas momentaneamente há harmonia no meu universo. Belo Édipo que sou, convido a Mamma pra vir jantar com o namorado. Ligo também pro Touché e pra Tertius Quid e marco o aquecimento pro baile aqui em casa. Thaís, Touché e eu nos conhecemos desde quando as galinhas tinham dentes. A noite promete. Sento aqui e traço estas linhas: a caneta de pena desenha gostosamente estas cobrinhas pretas no papel. Às vezes, escrever é uma cólica de diarréia: o texto tem de sair!; agora, faço-o pelo puro prazer do ato. Comer e transar também são assim: faz-se por necessidade, com urgência, ou por prazer, com calma e requinte. Aliás, este bem pode ser o meu plano geral para este Carnaval: tudo com calma, tudo por prazer: beijar as meninas novinhas que me sorrirem, comer as velhas conhecidas com o saber dos corpos que se entendem, sair travestido no "Eles por Elas", tomar trago, pedalar na praia e cair duro, cinzas de mim, na quarta-feira. Não se pode prever o futuro. Tudo bem. Tenho meus planos. Thaís estará aqui. Viveremos encontros e desencontros, só não sabemos com quem. Afinal, não se pode prever o futuro.
Pablo Picasso -- Pierrot Terça-feira, Fevereiro 10, 2004
Van Gogh Então era uma madrugada quente de quarta-feira e eu estava no Van Gogh com amigos. Van Gogh, na esquina da Rua da República com a Avenida João Pessoa, é o bar da boemia porto-alegrense. Quando não tem mais nenhum restaurante aberto, quando todos os outros bares já fecharam as portas, é só passar no Van Gogh. Lá, a noite nunca acaba. Van Gogh também é um dos bares mais democráticos da cidade. O inglês que trabalha pra uma multinacional conversa animadamente com a passista de uma escola de samba. O peruano que toca nas ruas da cidade bebe cerveja com o vocalista de uma banda punk. Um operário bêbado dorme debruçado sobre uma das mesas. Na mesa ao lado, duas produtoras de figurino falam de trabalho com um fotógrafo, um cabeleireiro e um diretor de arte. É quarta-feira, são quatro horas da madrugada, e o Van Gogh está cheio. Eu, meu amigo e a mulher dele pedimos um prato de strogonoff com arroz e batata palha, um bauru e uma cerveja. Eles estão animados, falando sobre arte e filosofia. O assunto me interessa, mas algo, um olhar, desvia minha atenção. O rapaz na mesa em frente sorri quando percebe que eu fui fisgada. Ele e o amigo estão sentados lado a lado e praticamente não conversam. Trocam monossíbalos, no máximo. Eu disfarço, finjo não perceber aqueles olhos tão fixamente parados em mim. Impossível. Meu olhar curioso insiste em desviar da arte e da filosofia e ir em direção à outra mesa. Meu amigo percebe a minha desatenção e se vira no exato momento em que o rapaz levanta o copo em um brinde. Eu também levanto meu copo, sinal que faltava pra que ele tivesse coragem de se aproximar. Ele se apresenta e, no mesmo instante, segura e beija minha mão, propositalmente esquecendo um guardanapo entre meus dedos. Faz isso e vai embora, me deixando perplexa. Um beijo de uma pessoa que adoraria te conhecer, ele escreveu. Um guardanapo. Um nome e um telefone. Ligar ou não ligar? Ele foi ousado e eu gosto disso. Então vou ligar. E ligo assim que chego em casa. Eu também sou ousada. Ligo e ele atende surpreso. Não estava esperando meu telefonema. "Mas tu me deixaste o número. Não achaste que eu fosse ligar?" - eu estou surpresa, eu realmente não entendo os homens. "Achava, mas não hoje. Esperava o teu telefonema amanhã, mais no fim do dia." "Ah, entendi. Bom, só liguei pra te dar oi e desejar um bom dia." - foi o que eu respondi, já querendo encerrar logo o telefonema. Eu finalmente tinha entendido. Ele esperava que eu fosse o tipo de mulher que fica cozinhando os homens em banho-maria. Ele esperava que eu fosse o tipo de mulher que liga só no dia seguinte. Nesse dia, eu não liguei. E nem no próximo. Ele não queria me conhecer? Pois essa sou eu. Eu, que não faço o que esperam de mim. Eu, que como Drummond, sou gauche na vida. ![]() Terça-feira, Fevereiro 03, 2004 Mar da Arábia
O Gil by Cabiludo O Gil encerra sua apresentação e lentamente vamos deixando o Azad Maidan, embalados pela Indian Ocean Jazz Orchestra (baixo, guitarra de 12 cordas, bateria e percussão), excelente grupo local escalado para fechar a cerimônia de encerramento do Quarto Fórum Social Mundial. Somos 23 cabeças: andamos devagar: não há alternativa para um grupo tão grande. Somos 23 cabeças reunidas pela ONG franco-espanhola Babels (o nome não poderia ser mais bem posto!) para interpretar o Fórum. Tomamos o trem de Churchgate para Vile Parle separados: os meninos vamos num vagão, as meninas, noutro. Na estação de Vile Parle, descemos do lado oeste, distribuímo-nos em oito riquixás e rumamos para Juhu Beach, onde outro subgrupo de Babels já nos esperava em um café. Aqui acontece o desencontro do grupo: é impossível manter unidas as mais de 30 cabeças que somos agora, quando o café já fechou a cozinha e não vende cerveja. A dissidência a que me junto quer comida e birras. Erramos por Juhu Beach e Jairo, um galego-judeu do nosso grupo, não nos deixa esquecer do quanto nos parecemos com Moisés e seu povo, quarenta anos no deserto... De súbito, o Napoleão que vinha se debatendo dentro de Laura (como o Alien antes de nascer!) aflora de vez e ela nos guia ditatorialmente para as barraquinhas de "chiringuitos". (Afeiçoei-me tanto a esta palavra...) As barraquinhas estão sobre a calçada e logo onde acaba o pavimento ruge o Mar da Arábia em sua maré alta, as ondas quebrando-se contra o meio-fio. Antes que eu caia em tentação e coma algo capaz de me liquidar, chegam as cervejas que encomendamos e um emissário da outra dissidência, informando-nos que eles agora estão muito bem instalados em outra barraquinha logo adiante. Assim que os mais bravos terminam seus "chiringuitos", caminhamos pela estreita faixa de praia até aonde está o resto dos babelitos. Eles estão instalados como marajás sobre tapetes de grama artificial. A maré está baixando, mas metade da pequena roda-gigante ainda está dentro d'água. Queria poder dizer que havia uma lua sobre todo este cenário, mas a verdade é que, com toda a poluição de Mumbai, se havia uma lua, ninguém viu. Este foi o verdadeiro encontro do grupo: finalmente, não havia mais coordenadores e intérpretes, correndo de sala em sala, enfrentando todo tipo de falha técnica possível e imaginável. Éramos só pessoas de boa-vontade que haviam viajado meio mundo para ajudar outras pessoas igualmente de boa-vontade a se entenderem e este clima era evidente, estava no ar que éramos um grupo de gente boa e isso nos fazia bem, criava um bem-querer natural. Conversamos e rimos, felizes uns pela simples companhia dos outros, ouvindo o Mar da Arábia, que roncava em protestos sua retirada na madrugada. Os mumbaikars que nos haviam acolhido tão hospitaleiramente queriam dormir: já haviam fechado as barraquinhas e estendido as esteiras em que iam passar a noite, cena comum naquelas terras: as pessoas dormem ao pé de suas tendas de negócio. Entendemos que era hora de tirar o time de campo pela última vez: dissolvia-se o grupo Babels que foi ao Quarto Fórum. Uma espanhola tinha tanta fome quanto eu e aceitou o convite para omeletes no meu hotel. Comemos, tomamos um absurdo de quatro cervejas mais, conversamos, descobrimos certas ternuras, e ficamos por aí: no meu quarto tinha um babelito, no dela, uma babelita e nenhum quarto vago no hotel. Acompanhei-a ao riquixá que a levaria ao seu hotel, que a levaria de mim, ambos com a tristeza da separação nos olhos. Foi um encontro, não há dúvida, mas os carinhos que não trocamos, o amor que não fizemos, são hoje assunto do corvo do Poe: nunca mais! Subi para o meu quarto resmungando como o Mar da Arábia rugiu sua retirada das areias de Mumbai.
Bruegel, O Velho: A Torre de Babel (Talvez haja uma certa maldição para tudo o que seja Babel: as traduções que, na maior parte dos eventos, não conseguimos fazer, por falhas técnicas; este amor tampouco feito por falta de um mínimo de condições...) |
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