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Histórias de encontros e desencontros.


Sábado, Abril 24, 2004
 
O amante



Essa história começa na Internet. Muita gente acha que começar uma história pela Internet é acabar com todo o romance que ela poderia ter. Eu não concordo. Acho que histórias podem ser românticas independente de onde comecem, se em um bar, em uma viagem, a partir de uma amizade ou de uma mensagem piscando na tela do meu computador. De qualquer forma, a verdade é que essa história também não é nada romântica e, portanto, tanto faz se eu começo pela Internet ou pelo momento em que o vi pela primeira vez. No final, o resultado será o mesmo: mais um texto de encontros e desencontros.
Então essa história começa na Internet, com uma mensagem piscando na tela do meu computador. Nossos primeiros encontros foram virtuais. Até que um dia, verão de 99, resolvemos sair. Uma conversa entre amigos, não mais do que isso, como eu fiz questão de ressaltar e ele concordou. E ainda assim, fui buscá-lo em casa cheia de expectativas. Como ele seria? Que cor de olhos? Que altura? Bonito ou feio? Chato ou interessante? Cheguei à portaria do prédio com todas essas interrogações. O porteiro tocou o interfone e avisou que a senhorita Thaís estava aguardando na portaria. Depois, se virou pra mim e disse que ele - melhor não revelar o nome dele - já estava descendo. E eu fiquei acompanhando a luz do elevador, vendo-a saltar de andar em andar até chegar ao térreo. A porta se abriu e saiu uma família: crianças de bicicleta, uma mãe estressada e um pai distraído. E novamente a luz, o elevador subindo, o elevador descendo. Meu coração disparado. 3... 2... 1... térreo. E ele sai. Vem sorrindo na minha direção, o que me dá a certeza de que ele é ele mesmo, meu amigo virtual. Será que consegui disfarçar a surpresa? Ele é lindo! Entramos no carro e ele sugere um bar ali perto mesmo. Cerveja. Eu nunca tomo cerveja, mas nessa noite, com ele, foram quatro garrafas. O tempo passou rápido, não ficamos sem assunto. Mas logo já era tarde e eu o deixei em casa. Despedidas. - Não quer descer pra tomar um café?, ele convida. - Não, é tarde, tenho que trabalhar amanhã cedo., eu respondo. - Bom, então..., a frase dele fica assim, interrompida no meio, sem qualquer conclusão. Nos olhamos. Hora de dizer adeus, hora dele descer do carro e fechar a porta. Um beijinho, dois beijinhos e o terceiro beijo foi na boca, de me tirar o fôlego. - Tem certeza que não quer descer?, ele repete o convite. E antes mesmo que ele possa se arrepender, já estou parada diante do elevador. O desejo era tanto que nem pensamos em chegar até o quarto. O sexo aconteceu ali mesmo, no sofá da sala. Até aquela noite, eu achava que sexo casual não servia pra mim. Sexo tem que ter amor, eu repetia. Ou, se não tiver amor, no mínimo tem que ter uma intimidade muito grande. Eu realmente acreditava nisso. Até aquela noite, eu não sabia de nada, eu não me conhecia! E assim, foram dois anos de encontros semanais, interrompidos quando eu estava apaixonada por alguém e sempre retomados após cada uma das minhas decepções. Terça-feira à noite era dia de eu tomar banho de óleo, passar creme, pensar na lingerie. Duran Duran tocando a trilha sonora perfeita pra essa fase da minha vida. "Some people call it a one night stand but we can call it paradise". Finalmente, eu tinha descoberto o relacionamento ideal, o único que não poderia me decepcionar, partir meu coração. Nenhuma cobrança, nenhum compromisso, nada além de uma noite por semana. Até que um dia ele comunicou que ia morar com a namorada. E como eu não estava disposta a trocar minhas terças à noite por domingos à tarde, descobri que também esse tipo de relacionamento um dia chega ao fim.
Esse teria sido o ponto final da história se quatro anos depois não tivesse surgido um parêntesis no meu texto. Parêntesis seguido de reticências.
(Dia desses, uma mensagem dele piscando no meu computador. E então ele passou aqui em casa. Era domingo, às 3 da tarde.) ...




Sábado, Abril 17, 2004
 
Como te contar?

Ah, pena eu não saber como te contar que o amor foi tanto... A música me vem à cabeça porque é isso que eu queria dizer pra ele, o que eu pensei em contar pra ele quando o visse outra vez. Que o amor foi tanto! Quando nos despedimos, há quase quatro anos (e nem parece que faz tanto tempo assim), estávamos terminando nosso relacionamento e ele logo voltaria pra Espanha. Quando terminamos, há quase quatro anos (e diante dele, até parece que foi ontem que tudo isso aconteceu), eu achei que nunca mais o veria. E agora ele entra pela porta da Taberna Real. Ele entra, me vê e sorri. Ele não mudou nada, nem um pouco. Não está mais gordo e nem mais magro. Não está com menos cabelo, nem com mais cabelo branco. Não tem nenhuma ruga a mais. E os olhos, que olhos aqueles, pelos quais um dia eu me apaixonei sem querer. Quando nos conhecemos, era tudo muito improvável. O nome dele surgiu pela primeira vez na minha vida quando eu estava em Belo Horizonte, no casamento de uns amigos. Naqueles dias, eu ainda tentava reviver momentos de amor com o único homem que me fez esquecer de mim, abandonar tudo na vida e saltar em queda-livre. Queda livre do amor que tivemos, queda livre da minha carreira (ou da carreira que eu acreditava ter), queda livre da minha auto-estima. E ainda assim, lá estava eu com aquele amor inútil, aquele amor sem futuro. Lá estava eu naquele casamento, vendo a incompreensão nos olhos de todos, vendo estampada neles a pergunta que nunca fizeram: Por que tu ainda te sujeitas a isso? Mas ele estava a meu lado, e segurava a minha mão enquanto nossos amigos faziam juras de amor eterno no altar, e isso me bastava. Naqueles dias, bastava. Eu nunca precisei mais do que algumas doses do que ele pudesse me dar de amor. Algumas doses e eu poderia sobreviver a muitas distâncias, a muitos desencontros, a muitas decepções. Foi nesse casamento, quando eu ainda só pensava nesse outro, que o nome dele entrou na minha vida, por intermédio de um espanhol que conheci na festa. O amigo dele tinha acabado de se mudar para Porto Alegre. Engenheiro. Estava começando um estágio e ainda não conhecia muita gente na cidade. Eu também já fui estagiária em outro país. Então, dei meu e-mail e telefone, e disse que o amigo dele poderia me ligar a qualquer hora. E foi assim, por acaso, por acidente, nessas voltas da vida, ou do destino, como alguns preferem acreditar, que nossos caminhos se cruzaram. Ele mandou a primeira mensagem. Eu respondi. Ele respondeu. Nos encontramos num final de semana. Era inverno, frio em Porto Alegre. Ele morava longe e eu fui buscá-lo de carro. Situação estranha, mas nos sentimos confortáveis nela. Fizemos o roteiro tradicional de uma noite em Porto Alegre (e em outros lugares do mundo, que isso não é exclusividade de Porto Alegre!): paramos em um bar pra beber e conversar e, depois, paramos em outro bar, pra beber e dançar. E foi aí que, já animados pelo álcool, nos beijamos. O motivo do segundo encontro foi devolver a jaqueta que ele esqueceu no meu carro. Depois, vieram uma série de e-mails, telefonemas e encontros clandestinos. A essa altura, ele já tinha amigos dele, outros estagiários, gente que sabia que ele tinha um relacionamento sério na Espanha, uma namorada há sete anos ou mais. Eu também sabia. Ele me disse desde o princípio. Mas eu não estava apaixonada, estava me distraindo com um amor de data marcada. Amor com prazo de validade, como dizíamos sempre. Saíamos juntos, mas nossas mãos só se encontravam quando ninguém estava olhando. Era divertido aquele romance clandestino. Na frente dos outros, conversávamos com os olhos. Aqueles olhos dele! Os olhos que, agora, revejo diante de mim. Revejo e lembro. Lembro de quando soube que estava apaixonada. Sonhei com ele, com os olhos dele. E quando acordei, ele estava deitado ao meu lado. E abriu os olhos. E me viu pela manhã, sem nenhum glamour. E me beijou, ainda com gosto de manhã. E fizemos amor até quebrar a cama. Pela primeira vez eu senti que não era mais apenas uma brincadeira. E naquela noite, nos beijamos na frente de todos. E a partir daí, nos beijamos sempre, e vivemos intensamente o nosso romance. Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure. Foi assim, infinito enquanto durou. E um dia foi adeus. Um dia, algumas semanas antes de nosso prazo expirar. Eu sempre achei que foi melhor assim. Não teve cena dramática, não teve lenço molhado e mãos separadas por um portão de embarque. Mas eu nunca disse, nunca disse a ele que o amor foi tanto. Ficou faltando isso, ficou esse nó na garganta. E ainda agora, diante dele, não sei como dizer. Não digo. É meu último dia na Espanha. Nos desencontramos o final de semana inteiro. Nos desencontramos tanto que eu cheguei a duvidar desse encontro. Só que olhando pra ele, nada mais faz sentido. Ele foi importante na minha vida. Ele me tirou da queda livre. Ele me mostrou que eu podia viver outro amor. Mas por que dizer isso agora? De que adianta? Ele não precisa saber. Caminho sozinha até o hotel, escolho as ruas mais desertas de Madrid. Vou segurando o meu pranto. Ele não tinha mesmo que saber. Mas eu ainda preciso contar, desfazer esse nó. Então conto em conto. E pra terminar, eu canto:

"Você que eu não encontro mais.
Os beijos que já não lhe dou.
Fui tanto pra você e hoje nada sou."







Domingo, Abril 04, 2004
 
A cadeira ainda está vazia. Mas volto cheia de histórias. Agora, estou em Lisboa. Pouco tempo de Internet, pouco tempo pra escrever. Mas volto. Ao Brasil. Ao blog. Ao Ménage. Por enquanto, aguardo Cabiludo, que deve chegar amanhã.



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