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Histórias de encontros e desencontros. Sábado, Maio 29, 2004
Imagem de Asian Avenue/AlbieDog - Eu acho que não vai dar certo. - Como assim? - Desculpa, mas eu acho mesmo que o melhor é parar por aqui. - Parar por aqui? - Olha, eu acho melhor a gente não se encontrar mais, entende? - Tem outra pessoa? - Não, não tem outra pessoa. Por quê as mulheres sempre acham que tem outra pessoa? - Mas tem alguma coisa errada, então. - Tédio. Eu me canso das pessoas que gostam de mim. - Cansa? Cansou de mim? - ... (silêncio) - Desculpa. Foi a última palavra que ele me disse. Depois disso, nunca mais nos vimos. Mas esse diálogo ficou por muito tempo na minha cabeça. Eu preferia que ele tivesse dito: Olha, eu simplesmente não te amo! Isso ele nunca disse. Foi desculpa a última palavra dele pra mim. Barry Schlenker, professor de psicologia da Universidade da Flórida, define o pedido de desculpas como tentativas das pessoas de se eximir ou diminuir sua parcela de responsabilidade (ou irresponsabilidade), imprudência, erros, inadequação, estupidez ou atos prejudiciais que elas cometeram. Ele estava terminando comigo. Acho mesmo que ele nunca me amou. Pensando bem, ele realmente tinha que pedir desculpa por tanta estupidez! Quarta-feira, Maio 19, 2004 Resposta Pois é, Thaís, tu não ias comentar nem eu ia responder, mas aqui estamos... Saiu-me em versos a resposta. Que as leitoras me perdoem. Um coração que envelhece Querendo sentir ao menos agora O que não soube sentir na hora Um coração que agora Sabe desejar às claras Sorrir durante E sentir dor no fim Sístole e diástole Encontro e desencontro Sábado, Maio 08, 2004 Da série: Causos de um passado Cabiludo História de hoje: Débi Estamos sentados em uma mesa de bar: Débi, sua Amiga Feia, o Monitor e eu. Desnecessário dizer que, com toda a classe e cada um à sua maneira, o Monitor e eu competimos por Débi. As mulheres sempre escolhem os homens. Por alguma razão, Débi me escolheu. Nas palavras dela: "Você entrou na minha vida como se estivesse procurando caminho. Entrou no meu mundo como quem não quer nada. ...a cada gesto seu, a cada cortada sua na mesa do bar, ali percebi... e resolvi jogar seu jogo. Mas você nunca deixava eu ganhar uma de você. Foi assim que comecei a gostar de você." Saímos do bar juntos, deixando o Monitor com a Amiga Feia. Dirigi com calma pelas curvas da então péssima estrada que levava a Quatro Ilhas, onde eu estava acampado. Entramos no camping. Estaciono. Tiro o estojo do porta-malas. Pego a mão de Débi e a levo, passando por trás do restaurante, para o costão iluminado pela lua cheia. Paramos no meu lugar favorito para entrar e sair da água para snorkeling. Tiro o sax do estojo e toco "Yesterday" (não é por nada que é a canção mais executada no mundo; parece que "Garota de Ipanema" vem em segundo lugar) para Débi, em sol maior, que é mais fácil. Essa parte, que parece mentira, é a parte fácil da história. Uma sedução gostosa como poucas. Ao amanhecer, umas bimbas tais que entre uma e outra eu tinha de tomar ar e recolocar as estacas da barraca, que quase se desmanchava a cada terremoto. Daí pra frente é que são elas... As nuvens no horizonte apareceram quando almoçávamos juntos pela primeira vez. Entre a casquinha de siri e o peixe frito, fiz com Débi o jogo dos bichos, que é um teste psicológico disfarçado. Assustei-me ao ver que, no íntimo, no terceiro bicho, Débi identificava-se com um boi pela razão abaixo. Nas palavras dela: "3- boi -- são animais que nascem e têm os dias marcados." Ô depressão! Eu devia ter deixado Débi em casa e sumido na poeira da estrada. Nem eu entendo por que insisti em ter alguma coisa com ela. Isso era um desencontro evidente! Talvez tenha sido a bunda perfeita, que só voltei a encontrar na Foca; talvez tenham sidos os peitos fartos, sei lá... O fato é que ainda nos vimos algumas vezes e nos escrevemos por um bom tempo. Para me motivar e disciplinar a escrever-lhe, concebi o projeto de mandar a Débi, junto com cada carta, um capítulo que eu mesmo traduzia de "El Sueño de los Heroes", do Bioy Casares. Que eu me lembre, parei no décimo-primeiro, que foi mais ou menos quando me dei conta de que, por mais que eu convidasse e insistisse, Débi nunca ia subir no ônibus para me visitar em POA. Há coisa no mundo mais fácil do que simplesmente descontinuar uma correspondência? Pois é, minhas Leitoras Adolescentes, meus Leitores Escassos, pra escrever este post reli todas as cartas de Débi que guardei. (Se guardei cópias das cartas que lhe enviei, não sei onde as pus; encontrei apenas num disquete os arquivos dos capítulos traduzidos, ainda no formato do Wordstar que eu usava no PC-AT 286 em que os criei.) Esta história tem mais de dez anos e ainda assim me doeu ver o quanto eu a magoei, simplesmente por frustrar-lhe as fantasias de amor. Não esqueçam do post sobre o affair com Selenita: naquela época, eu era simplesmente incapaz de amar. Agora me dói retrospectivamente. Ô vidinha!
D R O W N I N G G I R L Roy Lichtenstein Oil on canvas 1963 Atualmente no MoMA. |
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