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Histórias de encontros e desencontros. Quinta-feira, Julho 29, 2004 A Caixinha de Glub-glub Era verão e nós éramos adolescentes, passando as férias na Terra dos Ventos sem Nome. Surgiu então a Caixinha de Glub-glub. O desafio era ver quem conseguia levar a história mais longe sem perder o ouvinte. A gente escolhia a vítima e perguntava: "Já conheces a piada da Caixinha de Glub-glub?". Se o cara não conhecia, a gente disfarçadamente ligava o cronômetro do relógio Casio de plástico, que na época todo mundo tinha, e começava. Eu quebrei meu recorde com o pobre Dudu, que me ouviu sentado sob os eucaliptos da Avenida por nada menos do que 48 minutos. Depois ele tentou me matar, mas eu corri mais. Enquanto eu escrevia o folhetim, quer dizer, os primeiros 14 capítulos, estava me divertindo. Não estava preocupado. Sempre que pensava em se deveria continuar, porém, lembrava-me da Caixinha. Por um lado, não queria transformar o folhetim em piada infame; por outro, não queria ficar kafkaniamente inacabado. A verdade é que este é um post sobre desencontros: há um desencontro íntimo entre o que eu posso e o que eu gostaria de fazer, e há outro entre o que eu faço e os leitores, seja deste blog, seja de outros textos. Definitivamente, não encontrei meu público. Desencontro. Não estou escrevendo para me despedir do Ménage, mas para dizer que sei do desencontro e que não vou mais fazer experiências malucas por aqui. Quando tiver um texto decente sobre encontros e desencontros, publico, mas, se não tiver, melhor pra nós todos que eu fique quieto. Quarta-feira, Julho 28, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XXII "Os regimes autoritários, sejam ditaduras como as que conhecemos por aqui ou 'comunismos' como os que ainda andam por aí, têm vários problemas em comum. Um deles é usar tipos medíocres, como eu era naqueles dias, para perseguir tipos excepcionais. A montanha nos nivelou: todos descobrimos dons que desconhecíamos. Quase tudo o que vês ao teu redor foi feito por estas mãos: eu: soldado? Eu: carpinteiro? Eu: marceneiro? Eu: quem sou? "Dona Nara tornou-se uma artesã ímpar: não havia material destes cerros que ela não soubesse retrabalhar para encantar a gente: seixos, cascas de árvores, pinhas, panos, chifres: a natureza ganhava outra vida em suas mãos mágicas: uma bruxa! Boa parte do que não podíamos produzir era comprado com os proventos da venda em Bariloche de seu artesanato. "Chego agora à parte dolorosa deste relato: segura-te, homem. Tua mulher já não está conosco. Uma noite de inverno, um parto difícil. Ela e a menina estão em nosso cemitério, entre os pinheiros. Não sei quem era o pai. Acho que ninguém sabia. Vê: de tanto brincar de hippie, um pouco nos contaminamos: havia amor livre, e era lindo. Os outros dois, que viviam com ela, não quiseram mais ficar aqui. Eu tinha família, então fiquei. Eles se foram pelo mundo. Não sei por onde andam. Um trabalho a mais para a vossa Sociedade. "A verdade, homem, é que nada termina, a menos que a gente queira. Se quiserem terminar minha história, só tocando fogo neste chalé, comigo e minha família dentro. Senão, nossa história continua. Todas as histórias continuam. Querem ir atrás da história dos dois chilenos que o mundo tragou? Querem perseguir outras histórias? Vocês decidem." Terça-feira, Julho 27, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XXI "O argentino? Manuel era o nome dele? Nunca soube. Não, ele não sobreviveu. "Então: comecei aquela tarde como prisioneiro deles, mas acabei sendo prisioneiro apenas de mim mesmo, ou do pacto que fizemos, que no es lo mismo, pero es igual. "Ficou acertado que não voltaríamos à vida. Para todos os efeitos, havíamos morrido naquele avião. Baltazar, um dos meus patrícios, era deveras jovem. Fazendo-se de hippie, andou pelas poucas fazendas do vale, mendigando comida e pedindo ferramentas emprestadas, com as quais construímos duas cabanas: uma, maior, para eles e outra menor para mim. Pouparam-me a vida, mas não me queriam tão perto assim. Isolamo-nos no monte sobre o lago, área pouco visitada. A bem da verdade, tínhamos mais medo de uma avalanche que nos levasse ao quinto cuerno do que de uma visita da polícia, qualquer polícia. "Um dos nossos trabalhos mais penosos era vigiar o lago, sabe? As águas são traiçoeiras: costumam regurgitar o passado quando menos se espera. Muitas vezes tivemos de abrir valas às pressas para enterrar pedaços da fuselagem que vieram à tona mais tarde. Sem falar nos corpos. Sabe como é: os cadáveres afundam primeiro, depois a decomposição gera gases no abdômen, que os fazem flutuar. Temos um pequeno cemitério particular em um local calmo, entre pinheiros. Resgatamos oito corpos; os outros devem ter ficado presos nas ferragens. Não, o argentino não era um deles. "O isolamento mexe com o homem. A noção de tempo é a primeira a perder-se, depois vai-se o resto: as prioridades, os valores, os interesses, os limites do espaço criativo. Diluído em uma cidade, um homem pode passar a vida sem descobrir seu talento para a carpintaria ou a caça: há outros homens que o fazem com habilidades comprovadas; perdido em uma montanha fria, este mesmo homem é seu próprio arquiteto, seu engenheiro, seu mestre-de-obras e seu peão. Nos meses que se seguiram ao nosso 'naufrágio' no lago, descobrimos aptidões antes insuspeitadas. Aos poucos, de tanto trabalharmos lado a lado nas tarefas necessárias à nossa sobrevivência, os outros passaram a aceitar-me também nas horas vagas. "Muito mais importante do que este processo de aceitação de uns pelos outros dentro de nosso grupo de 'náufragos', porém, foi o processo de aceitação de nosso grupo de 'hippies' pela pequena comunidade do vale. Se nos aceitavam, não iam nos denunciar. Estávamos seguros. "Em três anos, tínhamos desenvolvido tais laços entre nós que não havia dúvidas de lealdade: sabíamos que uma traição era impossível. Foi quando se abriu espaço para caminhos distintos. Revisamos o pacto. Em tese, todos podíamos fazer o que quiséssemos. Todavia, sabíamos que o mundo lá fora não havia mudado: os mesmos cães ainda viviam pelas mesmas regras. Seria loucura voltar, mas me deram permissão para trazer minha família para a montanha. Era só o que eu queria. Agora, eu espero que vocês não tenham vindo até aqui para destruir esta frágil felicidade que construímos com tanto sacrifício." Segunda-feira, Julho 26, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XX "Muito bem, homem, eu confesso: sim, eu estava lá naquela noite. Não sei o que deu errado. O piloto e o co-piloto não sobreviveram ao pouso pra contar. Vi por uma janela que o motor esquerdo havia parado. Em seguida, o capitão avisou que teríamos um pouso forçado na água, porque o risco de incêndio é sempre menor. Meu colega sacou a pistola e eu comecei a retirar as algemas dos prisioneiros. Em um pouso forçado em terra, meses antes, alguns prisioneiros haviam perdido as mãos, decepadas pelas algemas no impacto, e houve quem morresse da hemorragia antes que chegasse o socorro. Desde então, tínhamos ordens de retirar as algemas em caso de pouso forçado. Não devíamos danificar a carga. Que cinismo! "Eu voltei para o meu lugar, saquei minha arma e fiquei cobrindo os prisioneiros com meu colega. Havia uma calma estranha a bordo. Eles sabiam que nada muito melhor esperava por eles de qualquer maneira, e nós confiávamos na experiência do piloto. Ele escolheu um destes lagos para pousar, provavelmente procurando o que tivesse menos ilhas, e mergulhou no escuro. Deve ter errado o ângulo, porque a cabine foi destruída no choque: ele e o co-piloto morreram na hora. "Quando nos recuperamos do impacto, a cabine não estava mais lá e a água entrava rapidamente pela fuselagem aberta. Foi o fim da calma: instalou-se o salve-se-quem-puder. No escuro, sequer paramos para procurar coletes salva-vidas. Saímos a nado. A água estava fria de cortar. Em pouco tempo, já não víamos ninguém, ouvíamos apenas os gemidos de uns, os gritos de outros, e umas braçadas ritmadas distanciando-se. Eu não sei quantos saíram do avião e, destes, não sei quem morreu afogado antes de achar a margem. "Na manhã seguinte, já não havia sinal do desastre. O lago engoliu o avião. Eu estava meio morto, o frio me tinha anestesiado. Quando dei pela coisa, eles já estavam sobre mim. Eram três, dois homens e a tua mulher. Tinham raiva nos olhos. Pensei que iam me matar. Levei uns pontapés, depois se acalmaram, mas deixaram claro que o prisioneiro agora era eu." Sábado, Julho 17, 2004 Minhas desculpas Minhas Leitoras Adolescentes, meus Leitores Escassos, Desculpem. Não cabe a quem se mete a folhetins desertar desta maneira os leitores. Desculpem. Semana ruim. Seguimos. Ao menos, já sei para onde/até aonde vamos: termino no Capítulo XXII e tudo já está escrito. À Diderot: tudo já está escrito. Não é o máximo isso? A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XIX "Meu nome é Pedro. Vim de Santiago via Buenos Aires. As notícias que te trago são surpreendentes, não necessariamente boas. "Sabíamos desde o início que um dia enfrentaríamos uma situação em que teríamos de usar métodos semelhantes aos desta gente que desprezamos; em Santiago, há três meses, esta hora difícil chegou. Não havia maneira de se perguntar o que havia acontecido com aquele vôo. Debatemos muito e concluímos que este caso valia a pena, que valeria todos os nossos esforços, porque falávamos de doze chilenos, mais tua mulher e o argentino. "Começamos subornando gente da Aeronáutica, para identificarmos quem eram os tripulantes daquele vôo. Não obtivemos uma lista segura, porque muito tempo passou e porque houve gente deles que também desapareceu nos porões, suspeitos de simpatizar com o finado Allende. Chegamos, porém, a dez nomes prováveis. Daí em diante, usamos todos os recursos sujos de uma polícia secreta: violamos correspondências, grampeamos telefones e contratamos hackers para investigar históricos bancários de todos os membros imediatos das famílias dos supostos tripulantes. Nossas investigações nos levaram a um homem: sua esposa e os filhos haviam desaparecido três anos depois da data do sumiço do avião e seus pais recebiam cartas e telefonemas da Argentina, para onde eles mandavam dinheiro. "Não havia método sutil a ser empregado. Invadimos a casa dos velhos uma noite e os mantivemos reféns por todo o final de semana, usando técnicas de desgaste psicológico. Não houve violência física, mas nem por isso deixou de ser um suplício para eles e para nossas consciências. Ao fim do martírio, tínhamos informações que nos levaram a decidir por mais esta aventura maluca: "Estamos há três dias mantendo uma família refém em um chalé nas montanhas. Suspeitamos que o homem estava naquele vôo. Ontem à noite, ele começou a ceder à pressão. Acreditamos que a tua presença, trazendo memórias vivas da mulher que estava no avião, pode ajudar a quebrá-lo de vez, levá-lo a contar toda a verdade." Sexta-feira, Julho 09, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XVIII A Sociedade da Orquídea não é feita apenas de professores universitários, de Botânica ou Ornitologia, mas de gente de qualquer ramo, desde que comprometidos com a causa, o sigilo e o radicalismo, ou seja, com o uso da força, se necessário. Entre seus membros inusitados, conta com um jesuíta paulista que perdeu um irmão nos anos de chumbo. Em sua passagem pela Santa Sé, no serviço diplomático da igreja, dominado desde há muito pela Ordem, foi iniciado na criptografia jesuíta, uma das mais impenetráveis do mundo, e compartilhou este conhecimento com a Sociedade. João leva quase uma hora para decodificar o telegrama. A mensagem, como não poderia deixar de ser, é telegráfica: "Bariloche, terça". Saber o dia e o local é tudo o que um membro da Sociedade precisa: os endereços seguros e os horários de encontro, específicos para cada dia da semana, estão memorizados. A travessia entre Puerto Montt e Bariloche leva menos de oito horas de ônibus. João cruza a região dos lagos admirando a paisagem intocada. Fantasia um reencontro com Nara, uma tarde de sol em uma destas ilhas lacustres que parecem estar em outra dimensão, como a mítica Avalon. Ao descer do ônibus, gasta algumas horas caminhando a esmo pelas ruas, para ter a certeza de que não o seguem. Na terça-feira, repete o procedimento e chega à casa segura na hora certa. Nota, com alguma preocupação, que há um carro com o motor em marcha à porta. Antes que toque a campainha, a mulher no banco do carona desce o vidro e lhe diz a senha. João dá a contra-senha. A mulher desce do carro e manda que João tome o seu lugar. O motorista arranca. Quinta-feira, Julho 08, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XVII O Pacífico sopra um vento frio sobre a terra. João está sentado em uma banca do mercado público de Puerto Montt, esperando que lhe sirvam os abalones que pediu. Freqüenta esta banca há três meses, a chilena que o atende já conhece seus gostos. Enquanto espera notícias da capital, investe seu tempo em excursões aos mais remotos vilarejos andinos, conversa com pastores e pequenos agricultores, sempre procurando um indício do desastre com o "vôo do condor". Ao receber o prato fumegante, relembra a tortuosa jornada, anos e quilômetros, que o trouxe a este ponto austral. Ver a mulher despir-se e saltar nua nas águas do Ubirici foi um evento de inflexão na sua vida. Até ali, João tinha pensado em Nara antes de mais nada; depois, passou a pensar no que era, e no que seria, sua vida sem ela. Decidiu dar-se o devido valor, não sair correndo atrás de uma maluca que vai nadar pelada. Pediu a tal licença do banco, pôs uma mochila nas costas e soltou-se pela América do Sul, de ônibus, de trem, de carona. Ao fim da viagem e da licença, sabia que queria voltar a estudar. Obteve uma transferência para Pelotas e conseguiu conciliar o trabalho com o curso de Biologia, dedicando-se especialmente à Ornitologia: os pássaros da mata galeria do Ubirici, os pássaros da amazônia peruana, os pássaros do cerrado brasileiro perto de Uruaçu: memórias indeléveis. Ao sofrer os primeiros sinais de impotência, João lembrou com uma saudade que o surpreendeu da esposa fugida. Tomou coragem e ligou para os sogros. Nunca mais haviam ouvido falar dela, nem um bilhete sequer. Os pais, naturalmente, não haviam esperado a eternidade que João esperou para procurarem pela filha: na semana seguinte à fuga, haviam atravessado o rio a Mala Suerte e descoberto ali o destino imediato da filha, a carona a Montevidéu. Na capital uruguaia, não foi difícil rastrear sua passagem pelo Banco do Brasil e descobrir que havia embarcado para Buenos Aires. Dali pra frente, mais nada. Saber do sumiço de Nara deixou João macambúzio por muitos dias, o suficiente para despertar a curiosidade de seu orientador, grande especialista em caturritas, emigrado da Argentina. Talvez para consolar seu pupilo, o velho Dr. Nuñez disse-lhe que não eram poucas as pessoas que haviam sumido em Buenos Aires naqueles dias, inclusive um sobrinho seu. Dias mais tarde, depois de umas cervejas pela noite, voltaram ao assunto e o velho lhe contou sobre a Sociedade da Orquídea, da qual fazia parte, na esperança de localizar ao menos os restos mortais do sobrinho. Este foi o segundo evento de inflexão na vida de João: de uma hora para a outra, esqueceu todo o rancor, toda a dor do abandono, e decidiu dedicar-se a descobrir o que havia acontecido com a mulher que tanto amou. Com a ajuda da Sociedade, passou a reconstruir a trajetória de Nara. O prato vazio fica sobre o balcão. João paga e sai caminhando, digerindo os caramujos na barriga, administrando as caraminholas na cabeça. Ao chegar à pensão onde está hospedado, recebe um telegrama do recepcionista. Está em código. O código da Sociedade. Quarta-feira, Julho 07, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XVI O avião pousou em Santiago ao entardecer. João foi direto para a estação ferroviária e tomou o noturno para Puerto Montt. Seus planos eram vagos, mas sua resolução estava inabalada. A Sociedade da Orquídea nasceu em um congresso internacional de Botânica realizado em Buenos Aires no início dos anos 90. Ao final do jantar de confraternização, depois de muito vinho tinto, alguns participantes descobriram que tinham algo em comum além da paixão por epífitas: parentes desaparecidos durante as ditaduras que assolaram seus países. Os vorazes porões de Buenos Aires, Santiago, Montevidéu e São Paulo haviam tragado vidas. A Sociedade nasceu para descobrir como estas vidas haviam acabado e onde estavam os corpos, pela força, se necessário. A bola estava agora com os chilenos da Sociedade. Eles deveriam decidir o que fazer com base nas novas informações que João levantara em Buenos Aires, afinal a tripulação e os prisioneiros, com exceção de Nara e Manolo, eram seus conterrâneos. Com certeza, seriam discretos e não pressionariam diretamente o governo, até porque o General ainda estava vivo. O trem cruza a noite ao pé da cordilheira. João vai bebendo uma vodka de quinta categoria e pensando na longa espera que tem pela frente: espera por pistas que o pessoal de Santiago pode levantar, espera por um sinal de que os destroços do avião são conhecidos no Sul, espera por qualquer coisa que possa alimentar sua esperança. O que ele sabe é que cada quilômetro rodado assim, ferro sobre ferro, aos solavancos, leva-o para mais perto de Nara: a cada minuto, está mais próximo do que esteve nos últimos trinta anos. Terça-feira, Julho 06, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XV O cinzeiro de pedra é pesado e João é ligeiro. Com um corte fundo na testa, Lopez cai desacordado ao chão. João encontra no coldre da axila o tão falado Colt. Cruz não teve tempo de fazer nada, continua sentado com uma cara de susto. -- Como são as coisas, Dr. Cruz... Eu entrei aqui desarmado e esperando conseguir apenas uma indicação de onde encontrar o corpo da mulher amada. Agora estou armado de verdade e com uma nova esperança... Afinal, se os uruguaios do time de rúgbi sobreviveram ao desastre nos Andes, quem sabe? De alguma forma, Nara pode ainda estar viva... A questão é: o que faço com o senhor? Acha que devo mesmo meter-lhe uma bala entre os olhos? -- Vamos com calma. Sua esperança parece-me ridícula, mas matar-me não lhe ajudará a chegar aos Andes. -- Muito bem. O que sugere? -- São duas horas da tarde agora. Inês já saiu para sua folga e não há mais ninguém na casa. Nós amarramos e amordaçamos meu amigo aqui, para que não nos dê trabalho ao despertar. Depois eu o acompanho aonde quiser, até se sentir seguro. -- É bom que não se esqueça de que não estou sozinho. Se me trair, alguém virá ajustar contas consigo. -- Deixe de ameaças: não lhe caem bem. Vamos, ajude-me com este infeliz. Encruzilhada Minhas Leitoras Adolescentes, meus Leitores Escassos, A experiência com o folhetim foi um fiasco. Confesso que me diverti um pouco escrevendo-o e sei que tem gente que acompanhou com algum interesse, mas não cheguei a nenhuma D. Maria. Pensei que uma maneira de dar uma sobrevida ao folhetim seria tentar torná-lo um pouco interativo, quem sabe com uma leitora dando o tom, em duas ou três linhas, e eu me encarregando de continuar, mas também já desisti. Disseram-me que, de um jeito ou de outro, eu exijo demais dos leitores. Domage. Enfim, os quatorze capítulos publicados estavam escritos antes de eu postar o primeiro. Daqui pra frente, vou só tentar encerrar a história. Acho que devo conseguir fechar ao redor do vigésimo capítulo. Gracias. Segunda-feira, Julho 05, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XIV -- Então é este pouca-bosta que está te ameaçando, Cruz? Tu sempre foste um cabrão, mesmo! Olha aqui, safado, eu vou responder as tuas perguntas, não por medo da arma que dizes ter nesta bolsa de jornalista hippie, mas por prazer. Depois, para que saibas logo, vou sacar este Colt 32 que tenho há quarenta anos e nunca me falhou, e vou te matar em legítima defesa, tendo um juiz por testemunha. E aí, como desde sempre, nada vai me acontecer. -- Isso nós vamos ver. Então, o que aconteceu a Nara, depois que a levaram ao Centro? -- Posso te contar o que sei, mas o que houve ao fim e ao cabo com ela ninguém pode te dizer. Vê bem, na maioria dos casos eu só poderia te dizer o mesmo que te disse o Cruz: depois de 30 anos, como vou lembrar de um caso, no meio de tantos? Só que desta tua china eu lembro. Vê: naqueles dias, era raro cair-nos um brasileiro nas mãos, mais raro ainda uma brasileira como aquela, e contando uma história tão louca. Nós tínhamos grandes planos pra temporada dela no Centro; o Flaco, então, chegava a babar-se de gozo por antecipação. Mas as coisas não saíram como prevíamos... -- O que houve? -- Já que não sairás desta sala, vou te contar. Já ouviste falar nos vôos do condor? -- Na canção? -- Não. Os vôos do condor eram irregulares, mas aconteciam, em média, a cada dois meses. Um singelo intercâmbio de prisioneiros entre nossa Junta e a turma do Gen. Pinochet, uma troca de subversivos: nós lhes mandávamos os chilenos apanhados do lado de cá, eles nos mandavam os argentinos presos do lado de lá. Era raríssimo termos outras nacionalidades nestes vôos. Às vezes aparecia, por exemplo, um cubano ou um basco do ETA, que havia operado do outro lado e tentava sair deste; por mera cortesia, mandávamos de volta. Pois então, mesmo passado tanto tempo, é de se lembrar a noite em que embarcamos aquela brasileira no condor. -- Mas por quê? O que queriam os chilenos com ela? -- Nada, naturalmente. Só que eles tinham por lá o pai do amante dela e, para ajudar a tirar informações do velho comuna, estávamos mandando-lhes o filho. Naquela noite, ela caiu-nos nas mãos e decidimos mandá-la junto. Sabe, às vezes as pessoas resistem bem à dor, mas não resistem a verem pessoas queridas sofrendo... -- Seus canalhas! -- Hah! -- E o que houve então? Ela foi entregue aos chilenos? -- O avião partiu com ela (intocada, o que quase matou El Flaco de desgosto), o amante e mais uma dúzia de chilenos. O problema é que nunca chegou. Vê bem, eu não sei de que sociedade secreta tu fazes parte, coisa ridícula, de crianças que leram novelas de capa e espada demais, mas secretas mesmo eram as nossas operações internacionais. Se tu não sabias dos vôos do condor, é porque a tua gente não sabe. Ainda temos segredos bem guardados. Então: obviamente, não há qualquer registro destes vôos. O fato é que aquele saiu e nunca chegou: perdeu-se em algum ponto sobre a cordilheira. Como o vôo não existia, não podíamos mandar equipes de busca. O raciocínio, dos dois lados da fronteira, foi que, de qualquer forma, não valia a pena: era só uma equipe mínima da aeronáutica e um bando de presos de bosta que de qualquer forma estariam mortos em mais uma semana ou duas. -- E os destroços? Devem ter sido localizados algum dia, nem que seja por pilotos comerciais... -- Justamente para evitar encontros indesejados com pilotos comerciais, os vôos do condor não usavam rotas comerciais. Que eu saiba, nunca ninguém localizou aquele condor perdido. Nem nos preocupamos em fazê-lo, como já te disse. E, agora, se me dás licença, vou te enfiar uma bala na testa! Domingo, Julho 04, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XIII -- Vou lhe dizer: o pior não é que acredito no senhor: o pior é que eu, no fundo, já sabia o que ia ouvir, já vim preparado para esta barbaridade que o senhor me disse. Então eles eram muitos, os suspeitos, e é impossível lembrar caso a caso... Seu pulha! Mas, como eu disse, vim preparado pro seu esquecimento. Veja, nós fizemos o tema de casa bem feito. Nós sabemos o papel que cada um de vocês teve nas atrocidades daqueles dias. Realmente, o senhor consta apenas como um delegado de bairro, encarregado de manter a ordem na vizinhança e de mandar os suspeitos de subversão pro Centro, que se encarregava deles. Mas os seus contatos ainda têm valor. Se o senhor não sabe que fim deu aquela brasileira, que se chamava Nara e que eu amava, vamos descobrir juntos: o senhor deve saber quem sabe. É melhor chamá-lo aqui. -- Você diz "nós". "Nós" quem? -- Não lhe interessa. Hoje, quem faz as perguntas sou eu. Vou até lhe dar uma sugestão: ligue logo pro Lopez. Ele era seu contato mais chegado no Centro, depois vocês tiveram aquela banca de advocacia juntos, e hoje tem gente que diz que continuam mancomunados, ele na banca e o senhor na corte, mas não são as maracutaias de vocês que me trazem aqui. Vamos, chame-o de uma vez. -- Isso não é assim... -- É, sim! É domingo. A esta hora, ele já vai ter voltado do clube, onde foi jogar tênis cedo pela manhã, como de hábito. Já lhe disse que sabemos de tudo. Inclusive, se alguma coisa me acontecer, outro desconhecido cedo ou tarde virá bater à sua porta pra fazer as mesmas perguntas, só que ele não será tão gentil: a Sociedade da Orquídea só dá uma chance. -- Sociedade da Orquídea? -- Ligue pro Lopez! Sábado, Julho 03, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XII O sol de domingo brilha sobre as ruas de Buenos Aires. O homem com a bolsa a tiracolo aperta o botão da campainha e espera. A criada abre-lhe a porta e ele apresenta um cartão de visitas. Passados uns minutos, é convidado a entrar e levado a uma biblioteca. Os livros de direito tomam duas paredes inteiras e uma janela que se abre para um jardim pequeno, mas bem cuidado, domina a parede do fundo. O visitante levanta-se quando chega seu anfitrião e cumprimenta-o formalmente, como exige a ocasião: o repórter vai entrevistar o juiz. -- Doutor Cruz, meu jornal pediu que marcássemos esta entrevista para discutirmos o processo de privatização na Argentina. Antes de começarmos, gostaria de recapitular sua biografia para nossos leitores. O senhor formou-se em direito ainda jovem... -- Sim, fui um dos primeiros da turma, inclusive... -- E fez concurso público... -- Exato. As oportunidades no país eram escassas naquela época, a Junta havia apenas assumido, as incertezas eram tantas, havia pouco investimento... -- Sim, então o senhor fez concurso para delegado de polícia. -- Foi, era o que havia para um advogado recém-formado, sem experiência... -- E o fato de ser um regime de exceção não o incomodava, digo, não o incomodava ser parte do aparato policial de uma ditadura? -- Bem, eram outros tempos, as coisas eram difíceis, mas isso não tem a ver com nossa entrevista, não é verdade? -- Na verdade, tem tudo a ver. Doutor Cruz, nesta minha bolsa não havia apenas este gravador. Tem uma outra coisa perigosa para nós dois: se eu tiver de tirá-la da bolsa, o senhor vai ficar com um buraco entre os olhos, e eu, provavelmente, vou pra cadeia, mas este é um preço que estou disposto a pagar. -- O que você quer, seu maluco? -- Meu nome é João e, como o senhor costumava dizer antes, eu quero apenas a verdade. Sexta-feira, Julho 02, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo XI -- Senhorita, meus parabéns: tem uma imaginação de primeira grandeza. Deveria pensar em escrever folhetins. Um pouco mais verossímeis, se possível, porque a sua história não tem pés nem cabeça. Eu vou lhe contar a história como a vejo: você, sua cadela, é um correio que os comunistas brasileiros mandaram para estes filhos da puta daqui, com um pouco de dinheiro como sinal de boa vontade. Deve ser dinheiro que os seus amigos terroristas roubaram dos bancos brasileiros. E você deve ter vindo ensinar novas táticas de subversão, como estes seqüestros de diplomatas que andam acontecendo no Brasil. Confesse, vaca! -- Isso é um absurdo! Eu sou uma turista! O dinheiro são as minhas economias, mais a sorte que dei em Carrasco. -- Sorte o cacete! Alguma coisa você há de ter dado no Uruguai, mas duvido que tenha sido sorte! E, por falar em carrasco, deixe-me apresentar-lhe "El Flaco". Flaco, esta é mais uma guria burra, querendo dar de sabida pra cima de nós; guria burra, este é o Flaco: ele tem uma queda por suspeitas jovens, de corpo firme, mas não se nega a nada: até cão de estimação o Flaco já torturou, pra tirar uma confissão do dono. Nas mãos dele, até papagaio confessa ser urubu disfarçado. O Flaco trabalha no Centro. A decisão de entregar você a ele ou não é minha. Vamos de novo. Conte-me uma boa história e você vai dormir no avião. Se me mentir de novo, entrego-a nas mãos dele e verá todos os seus pesadelos se tornarem realidade. Além disso, nunca mais na vida vai conseguir sonhar sem que a cara dele, olhe bem pra ela, lhe apareça e você acorde suada, tremendo de alto a baixo, quem sabe urinando na cama: o puro pavor do trauma do Flaco. -- Eu não tenho outra história. Só o que disse aqui foi a verdade, toda a verdade. Eu não minto. -- Judas, traz a bacia com água, que eu vou lavar as mãos. Flaco, ela é tua. Quinta-feira, Julho 01, 2004 A SOCIEDADE DA ORQUÍDEA -- Capítulo X O homem está sentado atrás de uma escrivaninha, fumando calmamente. Nara está sentada à sua frente, algemada aos braços de uma cadeira dura. Atrás do homem, na penumbra, há um tipo raquítico cofiando um bigodinho estreito que apenas reforça sua impressão de pouco homem. Nara está preocupada, porque nem lhe puseram uma venda, nem estão estes homens usando capuzes: eles não têm nada a temer dela: este pensamento assusta-a muito mais. Toda vez que Nara abre a boca para tentar fazer uma pergunta, um dos gorilas, postado atrás de sua cadeira, dá-lhe um safanão e manda-a calar a boca. Nara compreende que está nas mãos do homem que vai terminando sem pressa o seu cigarro. Finalmente, ele fala: -- A senhorita porta documentos brasileiros, entrou neste país vinda do Uruguai e, revistando seu quarto de hotel, encontramos uma pilha de dólares. Chegou há dois dias e já está misturada a subversivos perigosos: dormiu com um homem procurado e associou-se a outros suspeitos em um antro de subversão conhecido. A senhorita tem muito a explicar, de acordo? -- Eu? Eu sou apenas uma turista que deu sorte de encontrar um namorado. Ele me deu o bolo no zoológico, então fui procurá-lo na faculdade, onde me deram o endereço da mãe dele. Vocês me seqüestraram antes de eu chegar lá, é só. -- Nós não seqüestramos ninguém: nós a detivemos para averiguações. Aliás, a senhorita é brasileira, mas fala minha língua muito bem -- isso também é suspeito! -- Não, senhor. Sou de Ubirici, na fronteira do Uruguai. Lá, todos somos bilíngües ou, pelo menos, falamos portunhol. -- Mais uma coincidência... Sabe, senhorita, na minha profissão nós temos pavor de coincidências inocentes... Nós procuramos a verdade que as pessoas teimam em esconder. Permita-me lembrar-lhe o evangelho: a verdade liberta. Diga-me a verdade e posso estar colocando-a num vôo de volta ao Brasil esta noite. -- Como assim? O senhor vai me deportar? -- Obviamente. A senhorita associou-se neste país a elementos perigosos, logo é uma estrangeira indesejável. O mínimo que faremos é deportá-la. -- O mínimo? -- É. Deixemos as outras alternativas para mais tarde. Conte-me agora a sua história, sem mentir nem omitir nada. |
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