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Histórias de encontros e desencontros. Sábado, Setembro 25, 2004 Comentário Roxane Minha vida neste blog está ficando fácil demais: só o que tenho a fazer é dar um bico nas bolas que Thaizita deixa quicando na área. Vai daí, tenho que inventar complicações por conta própria. Tem um texto antigo do LFV que fala do "problema do escritor e do tigre". Ele argumenta que tudo o que já lemos sobre o tigre é falso, porque um escritor de verdade nunca viu um tigre fora do zoológico. Em paralelo, argumenta que um escritor não pode escrever sem sua biblioteca. Aí nos conta um causo: até houve um dia em que um escritor viu um tigre, mas foi um tigre que fugiu e invadiu sua biblioteca. Resultado: nem este escritor que viu um tigre fora do zoológico pode escrever sobre o tigre, porque o tigre está em sua biblioteca! Ai, minhas Leitoras Adolescentes: se vocês acham que até aqui eu compliquei de graça, ponham o cinto de segurança pro que vem pela frente. Abomino todo maniqueísmo. Dito isso, nossa simetria externa (internamente, não somos simétricos: um exemplo simples: temos só um coração do lado esquerdo e só um fígado do lado direito) faz com que tenhamos uma preferência por dicotomias. Vai daí, nossa filosofia cismou que a toda tese deveria corresponder uma antítese. Eu acho um princípio de saída suspeito, mas a ele me rendo. Além disso, tenho uma preferência pela justiça (o que foi considerado por muitas seitas heréticas, reduzidas à razão e ao nada pelo ferro e fogo da Inquisição, um pecado, porque, afinal, a Justiça só a Deus pertence). Por conseguinte, sinto-me na obrigação de dizer que o texto do LFV fazia sentido quando foi escrito, mas que hoje já não faz, por causa da Internet. A Internet é uma biblioteca maravilhosa, à qual temos acesso de qualquer lugar. Ela é especialmente útil quando buscamos textos muito antigos, cujo copyright já expirou. Hoje, já não faz diferença se há um tigre na biblioteca do escritor ou não: ele simplesmente vai ao cybercafé mais próximo, consulta o que necessita e, na mesma máquina, digita seu texto! Então, eu ia dizer que o post de Thaizita me lembrou da Roxane de Rostand, que se apaixona pelas palavras de Cyrano no corpo de um belo, e ia dar a desculpa, hoje esfarrapada, de que mais não poderia dizer, porque estou na Terra dos Ventos sem Nome, e meu "Cyrano de Bergerac" está em POA. Dez minutos de busca na Internet e tenho o texto original a meu dispor. Ruas de areia, ventos sem nome, e Rostand ao alcance dos dedos. Será que só eu acho isso estranho? Sutilezas. No enunciado de uma adivinha cuja resposta é "ovo", a única palavra proibida é "ovo". Da mesma forma, em toda a peça de Rostand, cujo tema é a habilidade com as palavras, a palavra "palavra" só aparece duas vezes. Copio (e traduzo) abaixo dois trechos que, sem falar delas, falam das palavras de Cyrano: Christian quoi ! Pour quelques petites quê! Por umas simples lettres d' amour... cartas de amor... Roxane tais-toi ! Tu ne peux pas savoir ! cala-te! Tu não podes saber! Mon dieu, je t' adorais, c' est vrai, depuis qu' un soir, Meu deus, eu te adorava, é verdade, depois de uma noite d' une voix que je t' ignorais, sous ma fenêtre, de uma voz que eu te ignorava, sob minha janela, ton âme commença de se faire connaître... tua alma começa a se fazer conhecer... eh ! Bien ! Tes lettres, c' est, vois-tu, depuis un e, bem, Tuas cartas, é, vê, depois mois, meses comme si tout le temps je l' entendais, ta voix como se todo o tempo eu escutasse, tua voz de ce soir-là, si tendre, et qui vous enveloppe ! daquela noite, tão meiga, e que tu envelopas! Roxane la voix dans la nuit, c' était vous ! a voz na noite, eras tu! Cyrano je vous jure que non ! eu te juro que não! Roxane l' âme, c' était la vôtre ! a alma, era a tua! Então, Thaizita, eu te entendo. Lembro-me de tudo isso, de tanto Rostand, de tanto amor pelas palavras, e entendo que tinhas que ir a outro estado, a outro país se preciso fosse, porque não podias correr o risco de que ele fosse um belo barão com palavras de outro a lhe fazerem a figura, a lhe representarem a alma. Termino este post com palavras do Borges, umas poucas palavras dele que sei decor: "Palabras, palabras desplazadas y mutiladas, palabras de otros, fue la pobre limosna que le dejaron las horas y los siglos." Antítese! Segunda-feira, Setembro 20, 2004 "Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o pra sempre sempre acaba?" (Por enquanto, Legião Urbana)
Ele me conquistou pelas palavras. Palavras irônicas. Palavras diretas. Palavras de protesto. Palavras com atitude. Palavras diferentes. Palavras de afeto. Palavras sussurradas ao telefone. Palavras cantadas ao meu ouvido. Palavras que ele escreveu pra mim. Ele tem um vasto repertório. Não é particularmente bonito, mas conhece bem a arte de seduzir. Eu gosto de sedução. E gosto muito de palavras. Sonhei todos os sonhos dele e, do meu jeito torto, amei esse homem. Peguei avião, fui pra outro estado. Acho que teria até mesmo ido pra outro país, se precisasse. Poucas são as coisas que eu não teria feito por ele. A verdade é que eu tinha que conhecer o homem por trás das palavras. E conheci. Caminhamos sob as estrelas, dançamos no meio da rua, fizemos sexo, trocamos confidências e inconfidências. Como em um conto de fadas, essa história poderia terminar aqui. Eu poderia suspender a narrativa em seu momento mágico, dizer que fomos felizes pra sempre, mesmo sabendo que nada é pra sempre. Eu poderia parar nas reticências, deixando que em sua imaginação o leitor escrevesse o final. Que fim teríamos então? Mas vou adiante, até porque pouco tenho a acrescentar ao que já foi contado e essa história está mesmo chegando ao fim. Nosso "pra sempre" foi curto, muito curto. Não fomos muito além das reticências. Ele disse que ia ligar, mas não ligou. Eu pensei em escrever, mas não escrevi. Terminamos porque as palavras foram ficando escassas. As pessoas estranham que eu ainda esteja sozinha. Muitos dos meus amigos já casaram, separaram e até já casaram novamente. Muitas vezes me perguntam o que eu procuro em um homem, o que espero. Acham que eu sou muito exigente. Sempre que ouço isso, me lembro dessa história. Por que será que não entendem? Me conquistar é fácil, basta ter palavra! |
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