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Histórias de encontros e desencontros.


Quinta-feira, Outubro 14, 2004
 
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei,
Nas discussões com Deus.

(Sem Fantasia, Chico Buarque)



Capítulo 9

- Está tudo no capítulo 9, tudo no capítulo 9. A teoria eu entendo. Meu problema é com a prática. Mulheres são complicadas.
- Não. Nós somos muito simples, muito simples. Nós queremos amor. Casinha. Pra uma mulher, isso é mais importante do que sexo. Ok, eu sou uma exceção. Eu gosto muito de sexo e não estou disposta a abrir mão de um bom orgasmo. Mas também, já ando com uma sensação de vazio. Sexo por sexo. Sexo casual sempre me deixa com essa sensação de vazio. De qualquer forma, o problema é que enquanto nós queremos casinha, vocês querem sexo. É como o War, que jogávamos no início de nossa adolescência.
- Estratégias pra conquistar o mundo!
- Sim. Estratégias. Na nossa carta está escrito amor. Na dos homens, sexo. Então começa a guerra. Jogam-se os dados. Nos movimentamos pra convencer o inimigo (sim, porque a visão é sempre essa, de pólos opositores, de lados que se enfrentam) que nessa relação, só sexo não basta. Ele tem que sentir o vazio, o lado deprimente da busca incessante por um prazer que, em última instância, nunca será satisfeito. No final, ele tem que implorar pela casinha. O problema é que esse inimigo também tem um objetivo a conquistar. E ele sabe qual é a nossa carta, sabe exatamente o que queremos. É nosso tendão de Aquiles. O inimigo nos ilude. Chega com jeito de casinha. Seduzidas, nos entregamos. Sexo. O inimigo não liga no dia seguinte. A vida de vocês é muito fácil. Basta agir como quem quer casinha... As mulheres sempre caem nessa armadilha.
- Como te disse, tudo isso está no capítulo 9. E ainda assim, eu não entendo as mulheres.
- Não te preocupa. Acho que isso é normal. Eu também estou te falando isso e, confesso, tampouco entendo os homens. Como tu mesmo disseste, a teoria é fácil. Mas tem algo que me escapa... E isso deve fazer toda a diferença.

Alguns minutos de silêncio entre nós. Ficamos ouvindo o barulho do bar, observando a movimentação ao nosso redor. Enquanto isso, eu continuava rabiscando no guardanapo. Ys atrás de sexo. Xs atrás de amor. Xs querendo converter Ys. Ys querendo iludir Xs. Estou convencida que a equação é simples assim. Me acho uma mulher moderna. Não estou disposta a cair nas armadilhas da moral cristã dominante. Não quero saber dessa culpa cristã. Adão e Eva não poderiam ser felizes sozinhos no paraíso, sem nada pra fazer. Gosto de sexo. Acho absurdo que algumas das minhas amigas digam que nunca tiveram um orgasmo e que se sintam conformadas com isso. Acho que toda mulher deveria conhecer seu corpo, saber que pode ter um orgasmo sozinha, se quiser. Se houvesse menos preconceito... Toda mulher heterossexual deveria conversar com uma lésbica. É importante desmitificar o falo. Não só as mulheres, mas os homens também precisam desmitificar o falo. Muitas das minhas amigas acham que só terão um orgasmo quando encontrarem um homem que as ame. Poucas encontram esse homem. Algumas encontram e continuam sem ter orgasmo. Daí se frustram. Tenho um amante casado. Saio com ele regularmente. Normalmente nos encontramos em motéis baratos. Sexo com ele é bom, então não ligo pra qualidade do motel. Um dia, quando a mulher estava viajando, fizemos sexo na sala do apartamento deles. Não tive qualquer sentimento de culpa. Não conheço a mulher dele. Se ele não tem problemas morais com relação a isso, por que eu teria? Também acho normal conhecer um homem e transar com ele na mesma noite. Acho até melhor. Se ele desaparece depois, não me sinto usada. Eu mesma, nunca peço o telefone de um homem. E também não tenho o hábito de ficar ligando. Em geral, fico mesmo surpresa quando um homem me liga no dia seguinte. Não conheço muitas mulheres que sejam como eu, que pensem como eu. Então, eu deveria ser diferente. Mas não sou. E é isso o que me faz acreditar no esquema que rabisco no guardanapo do bar.

- Tu já amaste alguma mulher?
- Não. O amor, como eu o entendo, é muito complexo. Nunca amei ninguém.
- Como tu entendes o amor?
- Muito complexo, não dá pra explicar.
- E tu achas que vais amar alguém?
- Não.
- Isso não te deixa deprimido?
- Não. Nem um pouco.

Olhei pros olhos dele, de um azul muito claro. Nenhuma turbulência, tudo tranqüilo por ali. Ele nem hesitou, ele nem pensou um pouco antes de responder. E estava sendo sincero. Ali, mergulhada nos olhos dele, eu podia dizer isso com uma certeza absoluta. Expressão ridícula essa! Qualquer certeza que seja menos que absoluta já será uma incerteza.

- Mas tu te imaginas casado, com filhos?
- Pode acontecer.
- Pode?
- Sim.
- Mesmo sem amor?
- Sim.

Mais alguns momentos em que só nos olhamos sem dizer qualquer palavra. Dessa vez, foi ele quem retomou a conversa.

- Pode acontecer, mas é pouco provável. Eu tenho consciência do monstro que sou. Eu não gostaria de abandonar um filho. Só que me conhecendo, sei que sou bem capaz de fazer isso. Eu tenho consciência que é horrível ficar mais de um mês sem falar com a minha mãe. Eu tenho consciência que é horrível eu estar há anos sem ver minha prima e meu afilhado. Meu pai ligou. Deixou recados na secretária eletrônica. Não dei bola. Acho mesmo que o melhor é não ter filhos.
- É. Melhor assim. Até porque eu me preocupo com as tuas escolhas. Não entendo como tu podes manter relacionamentos duradouros com algumas descerebradas. Poderias até mesmo fazer um filho em uma delas! Acho que pra ti, isso não faria qualquer diferença.
- O sexo é bom.
- Mas isso é suficiente?
- É. Muito melhor do que sexo ruim com uma intelectual, sem qualquer sombra de dúvida. Além disso, do jeito que a gente encontra pessoas, principalmente nos bares, na noite, é difícil conhecer alguém que seja interessante. Precisa ter muita sorte.
- Ainda assim, tu encontraste algumas.
- Pois é, tive sorte. Apesar disso, nenhum desses relacionamentos deu certo. Sempre surge um problema. Nesses casos, faltou respeito.
- É, pode ser. De qualquer forma, tu não as amavas, tu disseste que nunca amaste ninguém.
- É verdade. Não amava.
- Me preocupo comigo. Eu critico as tuas escolhas. Ao mesmo tempo, sou capaz de amar alguém que não tem nada a ver comigo, sou capaz de amar qualquer idiota, desde que ele me ame. É um processo racional. Tenho consciência, mas não consigo evitar. Eu amei de verdade aquele homem. Não tínhamos nada em comum, nem mesmo gostávamos de ver os mesmos filmes. Ainda assim, amei aquele homem porque ele me amou.
- É fácil gostar de quem gosta da gente. Muito humano.
- Mas estou aqui, falando mal das tuas escolhas. Estou aqui, realmente tentando entender como tu consegues conviver com uma mulher que só a voz já é irritante. Uma mulher incapaz de discutir contigo sobre física quântica, metafísica, Freud ou O Jogo da Amarelinha. E no fundo, eu faço exatamente a mesma coisa. Amei sinceramente aquele homem, mesmo sem respeitá-lo. Claro que o meu conceito de amor é bem mais simples que o teu. Tu nunca amaste ninguém. Eu amei muitos homens.
- Mas a explicação é simples. Uma vez, já escrevi o que acho de ti. Incuravelmente romântica. O que falta é objeto pra tanto amor. Na primeira oportunidade que surge, segues o teu coração. E só o teu coração! Podes ser atéia e criticar a moral cristã. Podes ser uma mulher sexualmente livre. Tudo isso é verdade. O problema é que não escapaste dos contos de fadas. Branca de neve, A bela adormecida. Só o beijo daquele príncipe é capaz de despertá-las. Tu és romântica, Thaizita. Incuravelmente romântica. Se te amar, o sapo parecerá príncipe. Os contos de fada também estragam a vida das mulheres.

Vi que ele se entusiasmava com a conversa e que seu raciocínio ia adiante. Então, não o interrompi. Ele prosseguiu.

- Comigo é diferente. Não sou romântico e, como já disse, meu conceito de amor é complexo. Já perdi qualquer esperança de amar. O segredo, no meu caso, é saber administrar o silêncio.
- Administrar o silêncio?
- É. Como tu mesma disseste, algumas das mulheres com quem eu saio não passam de uma boa trepada. Só isso. Mas quero comê-las sempre. Então o jeito é evitar conversas. Ir ao cinema, jogar. Fazer programas que não exijam, que de preferência até evitem, que ela abra a boca. Que a boca dela só abra pra me chupar! É isso. A voz dela não vai me irritar porque nem vou ouvi-la. O máximo será ouvir seus gemidos de prazer. Vou gozar e isso é o que me importa. Vais me achar egoísta, eu sei, mas eu nunca neguei isso.

Ele fez uma cara de satisfação. Talvez estivesse imaginando a chupada. O meu silêncio não o incomodou - bem, ele está acostumado a administrar os silêncios. Então, continuou falando.

- Bom mesmo são as paixões. Paixões eu tive várias.
- Mas paixões acabam rápido. E depois?
- Depois é administrar o silêncio. Ou sucumbir a uma outra paixão.
- Mas não fica um vazio quando termina?
- Tudo que termina deixa um vazio. Quando voltava pra casa, após um final de semana na campanha, com meus primos, achava tudo terrivelmente vazio. Quando termino de ler um livro, sinto esse mesmo vazio.
- Estou falando de um vazio emocional.
- Eu também. Quando essa viagem terminar, quando eu estiver sozinho em casa, sentirei um imenso vazio.

Meus olhos encheram-se de lágrimas. A perspectiva do vazio me assusta. E eu também sentirei um imenso vazio quando a viagem acabar. Lembrei de nossa adolescência. No final do verão, quando eu me despedia dele na praia e voltava pra Porto Alegre, era consumida por uma tristeza profunda, de doer o peito. Mas bastava avistar Porto Alegre ao longe, ver as luzes da minha cidade, pra que eu me sentisse verdadeiramente feliz. "Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau! Quando eu ando assim meio down, vou pra Porto e bah, tri legal!" Esse era o hino da nossa chegada. O coração palpitando de emoção. Ele tem razão. As paixões acabam rápido, mas e daí? O vazio das paixões findas é, ao menos, quase indolor. Pior é quando o amor acaba. Como suportar esse vazio? Melhor é não amar. Melhor é estar sempre apaixonada. Ele tem toda razão.

- Meu livro acabou. Eu te recomendaria ele, mas depois que não gostaste do Burlador de Sevilha, fico com medo...

A mudança de assunto não foi intencional. Apenas segui um fluxo de idéias.

- Do Burlador de Sevilha, já li tudo, todas as versões. Esse livro não tem nada de original. Só o que ele faz é recontar o enredo das óperas e a própria história do Burlador. Que, aliás, é o Don Juan mais desinteressante de todos os que já li.
- Ainda assim, eu gostei.
- Ele não tem nem mesmo uma forma original.
- Tu te prendes muito à forma.
- Claro! É o que nos resta. Em termos de conteúdo, não nos sobrou muito espaço pra originalidades. Os gregos e o bardo já contaram tudo. Qualquer história é repetição. Então nos sobra a forma. Avalovara, O Jogo da Amarelinha. Esses são livros geniais!

Os olhos dele brilharam. Estava novamente entusiasmado.

- Eu nunca tive a tua capacidade. Não consegui ler Avalovara. Sou uma leitora bem mais medíocre. Talvez por isso eu tenha gostado do Burlador de Sevilha.
- E ainda assim, lembro de teres me dito que estavas frustrada com o fim.
- É. Esperava mais.
- O sapo. Ele disse algumas palavras certas. Apenas algumas palavras. E isso foi o suficiente pra que ele virasse príncipe aos teus olhos.
- Nós ainda estamos falando de literatura, ou voltamos aos temas do coração?
- Os dois. No fundo, é a mesma coisa. Como te disse: está tudo no capítulo 9!





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