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Histórias de encontros e desencontros.


Quinta-feira, Novembro 25, 2004
 
O Luau do Duda Rei

Minhas Leitoras Adolescentes, meus Leitores Escassos,

Eu nem ia falar nada, mas Thaizita já postou que andei por Noronha esses dias, e eu mesmo já postei um texto falando de uma noite às margens do Mar da Arábia, então -- por que não?

Chegamos a Noronha numa quarta-feira e logo ficamos sabendo que na noite seguinte tinha luau. Era minha primeira vez na ilha e eu estava completamente de sangue doce -- se meus primos, que já conheciam o lugar, tivessem me dito que o bom programa era um terreiro de candomblé ou um baile de salsa-merengue, eu teria ido do mesmo jeito.

Não é possível, e olha que eu já tentei!, descrever uma noite perfeita, seja na beira do mar (três vividas, contando esta de Noronha), ou no meio do pampa (duas outras), ou dentro dum boteco (só uma até agora, mas esta história se cruza com o tema de Gaia, que provavelmente eu nunca abordarei neste blog). Apesar de serem indescritíveis, noites perfeitas têm algumas características comuns que ajudam a identificá-las; basta que o sujeito se faça duas perguntas, naquele momento de enlevo:
-- eu poderia ter pago pra garantir este momento?
-- se eu tivesse planejado este momento, é certo que ele aconteceria, ou ele poderia ter sido ainda melhor?

As respostas a ambas perguntas devem ser negativas. Noites perfeitas têm isso em comum: são filhas do Acaso: não podem ser compradas nem planejadas. Por exemplo: noites em que a lua cheia sai vermelha detrás dos molhes da Terra dos Ventos sem Nome são lindíssimas, mas são previsíveis. Não custam nada, mas estão lá pra quem, delas sabendo, quiser vê-las. Só podem ser perfeitas para alguém que, não sabendo delas, com elas se surpreenda. Noites perfeitas são... perfeitas. Enfim, já disse que não dá pra descrever...

Em Noronha, nas areias em frente à barraca do Duda Rei, tínhamos uma bela fogueira, casais e grupos, como o nosso, espalhados, e beijos, papos, baseados e birras. Mais além, o Mar de Dentro, ainda calmo, ainda se preparando para as mostras de força que começariam dentro de poucos dias (nós estávamos na ilha quando começaram) e que só vão terminar lá por março, e sobre todos nós, humanidade e plâncton, a lua cheia. Ô luau!

Nosso grupo, um átomo: forças poderosas de atração no núcleo (os três primos) e certas forças repulsivas, de muito menor intensidade, porém de fundamental importância para a compreensão da dinâmica do todo. E assim, ainda que tudo estivesse perfeito, primeiro lá se foi o primo-com-namorada, porque sua Bela bocejava. Restei com o primo-atleta, que logo pensou no seu condicionamento e tirou o time de campo.

E então lá fiquei eu, o primo-bebum, próton aglutinante por natureza, porém nada mais do que um elétron perdido naquela hora em que a brisa do Mar de Dentro começava a dispersar os grupos e a perfeição da noite. Um elétron solto é um perigo -- toda a matéria o sabe! (E toda a Vida o louva -- que é tua respiração, mulher, senão um elétron desgarrado correndo para o oxigênio?) Todo bebum, do Jaguar a Yours Truly, sabe que a solução é adotar o balcão do boteco como núcleo.

No balcão estacionei, partícula satisfeita no seu orbital, vendo o lento declínio da lua na sua órbita. Talvez tivesse ficado mais, não fosse o par de partículas que se me apresentou: ela, novinha, redonda (no sentido grego, de perfeição do círculo), bela sob a lua, divindade pagã ao pé da fogueira; ele, velho, redondo (no sentido brasileiro, de baixinho com barriga de cerveja), incapaz de sentar-se ao balcão conosco ou de ir ao pé do fogo com ela: uma figura patética, parada no meio do caminho (como a pedra do Drummond): imóvel, enquanto ela ia; rabugento, quando ela voltou.

A cena me perturbou tanto que, tomando a última birra, tirei lápis e papel do Batcinto-de-Utilidades, a.k.a. pochette, e anotei algo parecido com:

"Não é a retirada do povo, nem o fim do beber, nem o cair da lua que mata um luau; o que mata um luau é King Lear babujando Juliet!"

E fui dormir.

Breve (agradeçam-me) autocrítica e incontida (malgrado meu) auto-análise:

Quem manda não saber sair próton, mas preferir ficar elétron?
Quem manda ir pra Noronha, lugar sabidamente difícil de se arrumar, com a convicção, apenas semi-inconsciente, de que "sou tão próton que até em FN vou achar e atrair um elétron!"?

Quem sabe aí está não uma mera História Cabiluda, mas a própria História do Cabiludo? Voltando a exemplos de Shakespeare: o Cara não sai Próspero (senhor das palavras e dos elementos, com tudo pra prosperar) para ficar Hamlet (símbolo de todo aquele que escolhe a fraqueza, mais especificamente a fraqueza através da loucura = embriaguez). E aí, na pele escolhida de Hamlet, o Cara tem o desplante de se queixar que King Lear anda babujando Juliet!


Sir Laurence Olivier encarnando Hamlet.

Em suma: eu tenho mais é que me foder mesmo!

Moral do post: Hamlet era príncipe, Lear era King, mas Rei mesmo é o Duda, que tem seu boteco maneiro na beira do Mar de Dentro, em Noronha!





Quinta-feira, Novembro 11, 2004
 
Enquanto o Cabiludo mergulha em Fernando de Noronha e o Rodrigo vive mais encontros que desencontros, eu sigo por aqui.



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