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Histórias de encontros e desencontros. Quinta-feira, Dezembro 16, 2004 Primavera de Choque O inverno é uma merda: sem Ra, o Grande Prozac, tudo fica muito cinza. A primavera, pelo simples incremento do fotoperíodo, é uma terapia de choque pra depressão, mas esta teve outros choques pelo caminho: duas viagens sem encontros, desencontros brutais em POA e um retorno à Terra dos Ventos sem Nome para reencontros sem encontros. Uma dureza! Talvez por isso eu tenha decidido publicar abaixo um post rascunhado há horas, porém ainda inédito. Pombas Na adolescência, fui várias vezes passar férias em Uruguaiana, onde tenho uns primos que passam de uma grossura de campanha a uma certa sofisticação (por exemplo, gostam de Stanley Jordan e de José Feliciano cantando uma letra que não sei quem fez para "Samba P'a ti", do Santana) com uma facilidade surpreendente. Pois, naquele tempo, estes primos chamavam as minas de "pombas", e me alertavam: "Te cuida! Não joga pedra nas pombas dos outros!", o que, traduzindo, fica mais ou menos assim: "Não flerta com as namoradas dos outros." Até o machismo tem, ou tinha, um mínimo de ética. O que não é nenhuma novidade, afinal nas tábuas que Moisés trouxe do monte alguém (ele ou Eloim?) já mandava não cobiçar a mulher do próximo... Na época, acatei o bom conselho e até perdi algumas boas e desejadas oportunidades por conta disso; só fui começar a me curar quando do affair com Selenita, que já contei aqui. Acho que agora estou curado. Há uns três anos, comecei a ir passar temporadas na Terra dos Ventos sem Nome, que me viu nascer e me criou. Aos poucos, fui conhecendo as minas dos meus amigos, todos descasados curtindo a vida, e respeitei, até que chegou a hora de agir: um, para todos os efeitos, casou de novo, e outro se mudou pra POA -- a porteira ficou aberta. A Pomba saía com meu amigo que recasou. Eu trabalhei a menina com calma: jantamos no Larus, e cozinhei pra ela na noite seguinte, mas ela se atrasou tanto que, depois da janta, eu já estava tão cansado que achei que não valia a pena fazer força pra tentar levá-la ao tatame. Fui vencido no cansaço, literalmente. Voltamos a nos encontrar por aí, até chegarmos ao tatame. Daquele jeito sem jeito que é toda primeira transa, mas ao menos quebramos o gelo. Faz um bom tempo que Thaís, grande cúmplice, e eu discutíamos se valia a pena levar Fulana ao tatame. Nós os dois conhecíamos apenas superficialmente a menina, mas já sabíamos o suficiente pra ver que ela e eu, ao fim e ao cabo, não iríamos a lugar nenhum. "Então pra quê?", perguntamo-nos. E deixei Fulana em paz. Desta vez foi diferente. Lembro da entrevista de um alpinista: o repórter pergunta-lhe por que se arriscou escalando uma montanha que já havia tirado a vida de muitos outros alpinistas que tentaram conquistá-la antes, e o cara responde: "Simplesmente porque ela estava lá." Pois é: a Pomba estava aqui, sozinha, carente...
Cerro Torre, na Patagônia, onde se passa o memorável "Schrei aus Stein", do Herzog, 1991. No fim de 2004, esta história já é História Antiga. Na época em que a escrevi, achei que não estava boa e que não me convinha publicá-la. Agora, ela é mais interessante, porque me foi dado viver o outro lado da moeda. Estou indo à Terra dos Ventos sem Nome há tanto tempo que já há ex-pombas minhas, e é sempre interessante o cara se ver do outro lado da vitrina, quando são outros que andam jogando pedras nas pombas que foram nossas... Digamos que o reverso da medalha traz a efígie de uma pomba... Moral do post: mais vale uma pomba no tatame do que muitas na agenda. Domingo, Dezembro 05, 2004
Lagrima. Imagem capturada em "Cuentos para niños feos" Atormenta Muita gente vai achar que eu inventei essa história, que ela nunca aconteceu. Realmente, ela é meio surreal, e se não tivesse acontecido comigo, talvez eu também não acreditasse nela. Em outubro de 1981, um temporal atingiu a costa atlântica dos Estados Unidos. Essa tempestade foi tão violenta que o Serviço Meteorológico a batizou de "a tempestade perfeita", ou "a tormenta perfeita", como chamam os espanhóis. Embora na prática a destruição seja a mesma, eu prefiro o termo espanhol. Tormenta me remete a uma imagem de destruição muito mais devastadora. Uma das características curiosas dessa tempestade é que nenhum dos muitos sistemas de detecção foi capaz de prever o que estava prestes a ocorrer. Foi numa noite como todas as noites, em que eu estava aproveitando a vida, que nos encontramos. Quatro horas da manhã. Ele sozinho, tomando uma cerveja. Não sei o que tinha feito antes, se esteve em outra festa ou se passou a noite ali, esperando que eu chegasse pra que essa história pudesse começar. Difícil saber o que pode acontecer em uma história. Será a história de uma noite ou de uma vida? Eu, particularmente, gosto de imaginar que uma noite é uma vida. Tantos relacionamentos fracassados me ensinaram a não querer nada, a não esperar nada, a simplesmente viver o momento. Como no Jogo da Amarelinha, em que Maga e Horacio marcam encontros vagos pelo prazer de então se acharem ao acaso, em um café, no meio de uma ponte ou cruzando uma rua, eu teria deixado nosso próximo encontro acontecer ao acaso. Ele preferiu pegar meu telefone. Nos encontramos uma vez. E outra vez. Três, quatro, nem sei quantas vezes! Uma história livre, sem cobranças, sem rótulos. "- Nós não estamos namorando, ou estamos?" "- Não", eu confirmava. Talvez essa história seguisse assim por muito tempo se uma noite eu não tivesse ousado fechar os olhos e realmente senti-lo. Não só um corpo e outro corpo, mas cada veia, cada pulsar, cada batida do coração, cada gota de suor escorrendo. Nessa noite, algo se rompeu em mim. Ele deve ter sentido, porque me olhou assustado. Havia sangue por todos os lados. Eu estava sangrando. Ele buscou um papel e me limpou. Alguns homens me deram presentes caríssimos. Alguns fizeram loucuras por mim. Mas ele fez o que ninguém antes tinha feito. Então me convenci que o que se rompera em mim eram as barreiras do meu coração. Estava na hora de me apaixonar. E tinha que ser por ele! Passei a sangrar a cada encontro. Passei a sangrar por todos os poros. Não havia explicação pra tanto sangue. Lembrei então da tempestade perfeita, do mar não se contendo em si. Ele era a tormenta que obrigava meu sangue a se expandir para além das veias, para além de mim. Quando pensei na destruição que causam as tormentas, lembrei porque tinha protegido meu coração com tantas barreiras. Quando me entreguei aos sentidos, o vi gelo, o senti áspero, o provei amargo. Ainda assim, naquela noite me entreguei a ele. A ele, com seu desprezo por mim. Quem não vive pela metade, não morre pela metade. Deixei que ele completasse a destruição. A outra curiosidade que envolve a tempestade perfeita de 1981 é que assim como nenhum sistema foi capaz de antecipá-la e só depois da destruição os cientistas conseguiram entender como ela havia se formado, também as causas de seu desaparecimento são até hoje desconhecidas. Virou uma tempestade tropical, perdeu força e terminou. Naquela noite, não sangrei. Apenas senti na boca o gosto salgado da lágrima que caiu e se foi, como a onda que invade a praia e retorna ao mar. Assim ele também se foi. Quinta-feira, Dezembro 02, 2004 Divagando: Solidão Potiguares Imagino-me um potiguar. Vejo sumirem no horizonte os mastros da nau francesa e penso: "Que pobre deve ser esta gente, que vem de tão longe (tão longe que nunca os vimos antes, tão longe que não conseguiram me explicar de onde vêm) para trocar conosco uns paus que por aqui são mato por umas quinquilharias que não nos servem pra nada. Por pobres que sejam, no entanto, fiquei com vontade de ir com eles: seu chefe não tem um olho e eu vi outro que, como eu, não tem uma perna. Quem sabe entre os brancos eu seria apenas mais um a quem lhe falta um pedaço... Aqui na nossa tribo, minha vida não é fácil, e não é só porque me falta metade de uma perna. Meu primo Poty perdeu um braço na guerra com os cariris e todos o respeitam; de mim, todos riem, porque a meia perna que me falta foi comida por uma tintureira naquela noite em que, sem saber que a tintureira estava presa entre os bancos de areia que se formam na foz do rio mau (não é à toa que o chamamos de Paraíba), entrei na água para banhar-me com Jacy." (Imagino-me outro potiguar. Penso: "Como mudou nossa vida, desde que esses brancos apareceram para comerciar conosco: eles vêm sabe-se lá de onde e em troca desta madeira que não nos serve pra nada nos deixam ferramentas de um gume, de uma resistência tais que nos permitem fazer em minutos coisas que antes nos consumiam horas... Além de nos presentearem com uns penduricalhos que nos ajudam a rir uns dos outros, o que, pra nós, é muito importante.") Ensaio para a Solidão Thaizita, no começo deste ano, teve seu ensaio para a solidão. Seqüelas Termino de ler "Sul", a história da famosa expedição de Shackleton à Antártida em 1914-16. Desentendo o que levou aqueles homens a correrem os riscos, a pagarem o preço que o Pólo deles exigiu. Misturando Meu primeiro potiguar imaginário e os homens de Shackleton têm em comum as marcas que a má sorte pode deixar no corpo. Não me aconteceu. Apesar de tantos quilômetros rodados de moto e de alguns acidentes de carro, nada de seqüelas. A casca grossa que carrego não pode ser chamada de seqüela, é só um subproduto da solidão, esta maneira de viver só. São quase quinze anos nessa; Thaizita teve uma amostra grátis, enquanto a Mara estava fora. As cicatrizes são marcas das tentativas de sair da solidão: é quando o bicho sai da concha que ele corre perigo... Flutuando à deriva em um bloco de gelo, não há nada que não valha a pena tentar pra se salvar; da mesma forma, quando a solidão aperta, não há nada que a gente não tente, porque há muito pouco a ser perdido. O explorador caminha com os pés em ferida contra uma nevasca, porque é isso ou a morte; o sujeito vai de boteco em boteco, com o coração que é uma passa de uva, porque é isso ou a certeza do apê vazio.
Frank Hurley, o fotógrafo da expedição, registra o momento em que o Endurance, destruído pelo gelo, finalmente começa a afundar. Dito tudo isso, não custa lembrar do Cazuza, "... a solidão é pretensão de quem fica...", e pensar que, dependendo do que o cara quer ou tolera, realmente não é tão difícil encontrar alguém disposto a dividir por um tempo -- nada é pra sempre -- a mesma vida, um apê. Por que, então, em quase quinze anos de solidão não fiz esta tentativa? Talvez instintivamente eu esteja me protegendo: aceitando o risco das cicatrizes, mas evitando aventuras que podem deixar seqüelas. |
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