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Histórias de encontros e desencontros. Domingo, Janeiro 30, 2005 Um grito pode ser apenas um grito. Mas um grito também pode ser mais que isso. Meu grito foi um exorcismo. Grão 200 mil pessoas no Anfiteatro Pôr do Sol. Subi em uma cadeira de plástico pra ver melhor o palco e a multidão. Foi tudo muito rápido. O Gil cantava: "Quem poderá fazer aquele amor morrer se o amor é como um grão?". Levantei os braços e a aliança escorregou do dedo, rodopiou no ar, bateu na ponta da cadeira de plástico e desapareceu na grama. Pra mim, tudo parecia acontecer em câmera lenta. A aliança rodopiou no ar. Flash back. Eu e ele caminhando de mãos dadas pelo Brique da Redenção. A aliança começou a cair. Flash back. Eu e ele escolhendo nossas alianças trançadas. A aliança bateu na cadeira. Flash back. Eu e ele comprando alianças iguais. A aliança desapareceu na grama. Flash back. Eu colocando a aliança no dedo dele, ele colocando a aliança no meu dedo. Automaticamente, me atirei no chão e comecei a procurar a aliança, mesmo desconfiando que encontrá-la entre pés, terra e vegetação seria uma missão impossível. Por solidariedade, uma amiga começou a procurar comigo. "- Perderam alguma coisa?", perguntou uma menina que estava próxima. "- Sim", eu confirmei. "- O que vocês perderam, o que procuram?" "- O amor", eu disse. Então, ela se abaixou e começou a procurar. "- Elas estão procurando o amor", repetiu aos amigos, que imediatamente se juntaram a nós. A notícia se espalhou como uma epidemia. "- Perderam o amor." E assim, mais e mais pessoas aderiam à busca. Já havia uma multidão procurando o amor perdido quando eu finalmente me dei por vencida. Aquele amor não era grão, não ia mesmo crescer ou dar frutos. "- Não adianta! Esse amor está definitivamente perdido." Algumas pessoas ainda relutaram, não pareciam convencidas. Para eles, encontrar o amor era uma questão de honra. Mas eu já tinha compreendido que aquela busca era mesmo inútil e mais fácil seria passar no Brique e comprar outra aliança. Estava tão convicta que mesmo esses românticos se resignaram e logo abandonaram a busca. Voltei ao lugar onde tudo começou. Um homem estendeu a mão pra me ajudar a subir na cadeira de plástico. Olhei pra ele. Ele sorriu. Me apoiei na mão dele. Também sorri. E tudo voltou ao normal. Quarta-feira, Janeiro 26, 2005 E o Gil nem cantou ainda... Escrevo este post às pressas, entre a madrugada e o entardecer. Ontem à noite houve uma festa, que continuou pela madrugada, que me levou de volta a Mumbai, num processo que deve continuar na noite de hoje. Era a festa de boas-vindas da Babels a seus voluntários de todo o mundo, que ontem chegaram para participar deste V Fórum Social Mundial. O local escolhido não poderia ser melhor: atrás do armazém A-7 do porto, em seu cais, montaram-se a estrutura de som e dois bares. Tivemos, portanto, a rara oportunidade de estar à margem do rio* na região central de Porto Alegre, uma cidade acusada justamente de haver virado suas costas ao rio, de haver marginalizado o rio ao construir um muro para separar rio e cidade, o maldito muro da Mauá. Da beira do cais, então, tínhamos a visão da cidade desde suas águas, quando o que quase sempre fazemos é o contrário, é procurar um ponto da cidade para ver o sol se pôr no Guaíba*. Para quem se lembra do post sobre Mumbai, aquela noite começou na apresentação do Gil, que encerrava o quarto FSM. Desta vez, tudo começou mais cedo. Ontem estávamos à beira das águas de Porto Alegre, as mesmas pessoas de boa-vontade que vêm voluntariamente de todos os cantos do mundo (pra não acharem que exagero: temos voluntários do Líbano e de Israel, do Senegal e da Coréia) para ajudar outras pessoas de boa-vontade a se entenderem melhor. E desta vez não tínhamos a terrível poluição de Mumbai, pobre cidade que não vê seu céu, então tínhamos sobre nós uma maravilhosa lua cheia, espelhada nas águas do Guaíba. Começaram os encontros! E o Gil nem cantou ainda, vai cantar esta noite na abertura oficial do V FSM, numa festa que promete estender-se pela madrugada até a hora em que a música do Manu Chao venha fechá-la. Estamos tão felizes! E o Gil nem cantou ainda...
Anfiteatro Pôr do Sol, em Porto Alegre, na hora que lhe dá o nome. * Temos duas certezas: as águas que banham Porto Alegre são chamadas de Guaíba, e o Guaíba não é um rio. Nos mapas mais recentes, chamam-no de "Estreito". Não gosto. Prefiro, para ser exato, o que usávamos no curso de Oceanologia: o Guaíba é "a célula norte da Laguna dos Patos". Assim, quando chamo as águas de rio, entendam isso como uma metonímia. Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
- Tu és como Wim Wenders. Asas do Desejo. - Chata e sem cor? - Não! Eu gosto de Wim Wenders. Quer dizer, não gosto de tudo, mas gosto muito desse filme. Um clássico. E não é sem cor! No filme, os humanos enxergam colorido, lembra? - É verdade. Mas por que Asas do Desejo? - Porque tu és um anjo caído e uma trapezista solitária. Mas principalmente pelo conflito. - Conflito? - Sim. A dicotomia: Berlim está dividida entre leste e oeste e Damiel está dividido entre o céu e a terra, entre ser anjo e ser humano. Tu também pareces viver um constante dilema. Tu estás partida. Não sei o que te dilacera, mas sei que há muito tempo te encontras assim, dividida. - Boa análise. Mas não posso te contar da minha angústia, porque eu também não a conheço. Ela existe, habita em mim, mas não a conheço. - Não precisas dizer isso pra mim. Acho que eu te sei melhor que tu! - Ninguém me sabe. Nem mesmo tu. Nem sempre sou sincera contigo. - Mas eu sei quando não és sincera. Sei quando uma história é real e quando foi inventada. - Real!? Há algum tempo me questiono se isso é possível. Já acho que não existe realidade. E se não existe realidade, também não existe verdade. Duas testemunhas de um fato, duas versões desse fato. O problema está na recepção. Imagens, sons, sensações. A experiência do mundo é sempre individual. Cada um tem seu próprio filtro, dá mais valor a uma coisa em detrimento de outra, observa um detalhe em detrimento de outro. Além disso, estamos sempre interpretando. Cada gesto, cada movimento, cada olhar, cada silêncio. Comunicação não-verbal. A forma como cruzo os braços, minha postura, tudo em mim é um indício, tudo é passível de interpretação. Vejo apenas os olhos de uma pessoa e já tenho meu veredito: está angustiado. "Não!", me diz outra pessoa. "São olhos de um sonhador, de um idealista". "Nenhuma das duas coisas", diz uma terceira pessoa. "Ele está cansado". De qualquer forma, ninguém dirá que vê somente olhos. "Os olhos são o espelho da alma", não é o que dizem? Um fato, infinitas percepções possíveis. Então, o que é real? O que é verdade? O fato puro existe, mas é uma experiência inacessível pra nós. Também a verdade é inacessível. - Complexo. - Pode ser mais complexo ainda. Todo fato contado é uma dupla mentira. - Como assim? - Primeiro, passa por nosso filtro de recepção. E então, passa por nossa censura. - Por mim. - Por ti? - Sim. Por mim. Ou será que ainda não percebeste que estás apenas conversando contigo mesma? Eu não existo. Ou melhor, existo em ti. Por isso te conheço tanto. Por isso sei quando estás tentando me enganar, quer dizer, te enganar! - Estou ficando louca, então? - Loucura... Quem não acredita em nada, quem não acredita em realidade, quem não acredita em verdade, pode acreditar em loucura? - Não seria a minha descrença uma loucura? - Tu tens mais perguntas que respostas. E tu pensas muito. Nada é simples pra ti. Queres sempre entender os diversos aspectos, as muitas possibilidades. Por isso, talvez, seja tão difícil te contentar. Mais difícil ainda te entender. Como Wim Wenders. Compreendido por poucos. Tu não és óbvia. - Então estou condenada! - Não. Teu fascínio reside nisso. - Fascínio? De que serve esse fascínio que poucos compreendem? Estás tentando me consolar. - Talvez. Que diferença faz? - É verdade. Eu tentando te enganar, tu tentando me iludir. No final, sou sempre eu mentindo pra mim. E talvez eu seja óbvia, mas é muito mais fácil pensar que não. É muito mais fácil achar que ele não me quer porque não me entende. E agora eu lembro que toda essa história de Wim Wenders é também uma ilusão. Eu nunca me achei Wim Wenders. Quem disse isso foi ele. Ele me achava Asas do Desejo, não eu! - Mas um dia ias pensar a respeito disso, não? Como ele nunca te explicou, era natural que um dia tu mesma tentasse entender os motivos pelos quais ele te associou a Asas do Desejo e a Wim Wenders. - Por que eu pensaria nisso? - Não sei... mas estás pensando. - Estou? - Sim, desde o princípio, desde a primeira frase. - A frase foi tua, não minha! - Tu, eu... essa divisão só existe pra ti. É óbvio que eu não existo. Por isso ninguém me vê e nosso diálogo é mudo. - Eu não me acho um anjo caído. Também não sou uma trapezista solitária. - Será mesmo que não? É certo que esse pensamento te ocorreu, porque senão eu nem teria dito essa frase. - Podes ter razão. Eu acho que ele me achava Asas do Desejo porque me via assim, como um anjo caído ou uma trapezista solitária ou ambos. Talvez ele tenha gostado de mim por isso. Estou interpretando novamente, estou pensando por ele. É possível que ele não tenha pensado nada, é possível que tenha dito aquilo só por dizer, só pra me confundir. De qualquer forma, não me acho anjo caído, não me acho trapezista solitária, e também não me acho Wim Wenders. Mas concordo com aquela parte do conflito. - Até para descartar uma idéia é preciso considerá-la. Eu penso porque tu pensas. Tu pensas porque eu penso. Mas melhor não pensar nessa nossa divisão, já que ela nem sequer existe. Melhor esquecer essa divisão porque também eu começo a ter uma crise de identidade. Quem sou, afinal? Tua consciência? Não sei, não sei quem sou. Talvez não seja nada além de ti. - Loucura! E agora lembro que tu ainda me deves uma resposta... Não seria minha descrença uma loucura? - Não te devo nada. E nem tenho a resposta que me pedes. Se eu tivesse as respostas, tu também as teria. - Mas já deves ter pensado sobre isso, não? Quer dizer, eu já devo ter pensado... - Acho que a crença se aproxima mais da loucura do que a descrença. Mas isso porque também sou descrente, isso porque sou tu. Se eu pensasse diferente, então tua descrença seria uma mentira. Queres saber o que eu acho que é loucura? Loucura é aquela mensagem de duas linhas que termina em abraços. Loucura é ele sair da tua vida. - Ele tem todo direito. Deve ter seus motivos. - Mentira. - Ok. Ele é um burro, um idiota. Ele me teve e agora não me quer mais. Que estúpido! Será que já tem outra? Se me trocou por outra, é bem mais idiota do que eu penso. - Agora sim, agora já te reconheço. Adoro esse ímpeto, essa paixão! Pena que só eu, que sou tu, conheça esse teu lado. Só que esse teu lado também é uma mentira. Nem a compreensão, nem o ódio. O que tens é uma dor terrível. Do amor desprezado, do orgulho ferido. - Teu raciocínio me confunde. - Não! Melhor seria dizeres que teu raciocínio te confunde. - Não posso mais! Me deixa em paz. Preciso parar de pensar. Vou gritar. No escuro do quarto, apenas um som. AAAAAHHHHHHHHH!!! Meu grito estridente e desesperado rasgando o silêncio.
Sexta-feira, Janeiro 14, 2005
Entre beijos e abraços Espalho fotografias pelo chão. Eu e ele em um parque de diversões. Nessa época, éramos apenas amigos. Três anos depois, ele veio ao Brasil me visitar. Nós em Gramado. Esse foi o dia do nosso primeiro beijo. O clima de romance já estava no ar, mas nenhum de nós tinha coragem de tomar a iniciativa. Até hoje não sabemos explicar como aquele beijo aconteceu. Ah, aqui é uma foto dele na pousada onde ficamos. E aqui, uma série de fotografias de beijo. Diante do pôr-do-sol. Na churrascaria. No barzinho. Não é fácil manter um relacionamento à distância. No início, parece que vai ser insuportável. Lenços e lenços encharcados de saudades. "Já não sei mais viver sem ele." Foram apenas sete dias, mas sete dias muito intensos. Apenas sete dias, e já ficou difícil viver longe. Então vem a rotina. Acordar cedo, ir pro trabalho, sair com os amigos. E aos poucos, o esquecimento. "Como era mesmo o gosto daquele beijo?" A imagem dele surge borrada na lembrança. As primeiras cartas foram manuscritas. A minha letra. A letra dele. As lágrimas que eu deixava cair sobre as palavras. O papel de carta impregnado pelo perfume dele. As minhas cartas eram longas. Eu narrava minha rotina em detalhes e divagava sobre sentimentos. As cartas dele eram mais objetivas, porque ele sempre foi mais objetivo do que eu, mas vinham com fotografias. Ele lia a minha vida e eu via a dele. De vez em quando um de nós ligava. "Que bom ouvir tua voz!" Certa vez ele mandou um porta-retratos com gravador acoplado. Apertei o botão: "Oi, eu comprei esse presente pra que você pudesse olhar a minha foto e ouvir a minha voz a qualquer hora. Eu penso em você o tempo todo. Estou com saudades. De verdade!" Apesar disso, um dia vem a dúvida. A distância é um ácido que nos corrói. "Será que ele ainda pensa em mim o tempo todo? Será que ele lembra de como sou? Eu já quase não lembro, tenho que fazer um esforço. Tenho que ouvir nossa música, ler as cartas, ver as fotos, repetir mil vezes a mensagem do porta-retratos." A distância é uma quase-morte. A diferença é que quando há morte, não há mais esperança. Já a distância nos mantém em suspenso. "Mais uns meses e nos reencontraremos. Então, ficaremos juntos por 7, 15 dias, no máximo um mês. Depois, outra vez a distância. E um dia, talvez, a gente possa acabar com ela, saber quem somos e o que sentimos. Até então, só vivemos ilusões, fantasias, situações de exceção. Vencida a distância, teremos que enfrentar a rotina. Qual será nosso pior inimigo?" Um dos melhores beijos da minha vida foi virtual. Cartas manuscritas são mais românticas, mas demoram a chegar. Assim, nos rendemos à Internet. Uma vez, terminei a mensagem com *s. Ele não entendeu. Aula básica de relacionamento virtual: []s representa abraços - "olha bem, usa a imaginação, os colchetes não parecem dois braços que se unem em um abraço?"; *s representa beijos - "acho que é um beijo daqueles bem estalado, tu não achas?" A resposta dele chegou logo em seguida. [*]. Só isso. Nenhuma palavra, nada além de [*]. Um beijo no meio de um abraço. Um beijo na boca. Um dos melhores beijos da minha vida. A Internet nos dá a falsa sensação de proximidade. Com mensagens diárias, sabíamos exatamente o que cada um estava fazendo naquele dia, naquela hora. Era quase possível esquecer que vivíamos em hemisférios opostos e havia um oceano entre nós. Despertar meu passado é soltar todos os sentimentos, bons e ruins. Uma caixa de Pandora. Recolho as fotografias do chão e as coloco de volta à caixa. O lugar dele na minha vida é ali, dentro da caixa. Imagens, lembranças, um passado adormecido. Ele agora faz parte da vida de outra mulher. E eu? Eu ainda pulo de amor em amor. De amor em amor. O homem com quem estou saindo me manda uma mensagem minimalista. Duas frases. E no final, abraços. Abraços! Se tivesse ficado nas duas frases, eu poderia pensar que ele estava com pressa, e isso explicaria muita coisa. Mas ele termina com abraços. Até um amigo escreveria beijos. Com abraços, ele, que está a apenas alguns bairros de distância, nos afasta. Ele determina que a partir de agora estamos em hemisférios opostos, ele coloca um oceano entre nós. Qual a pior distância? A distância que nos separa geograficamente ou essa outra distância, a da indiferença? Abraços. Ele não precisa dizer mais nada, ele não precisa nem dizer que é o fim. Abraços. Domingo, Janeiro 09, 2005 Vontade de acender um cigarro e ficar olhando a fumaça, me perder na fumaça, me perder em pensamentos. Eu faria isso se houvesse um maço de cigarros por perto. Eu faria isso se eu fumasse. Esquento a água pra fazer a terceira xícara de café. Nescafé. Tenho preguiça de passar café. Quando morávamos juntos, eu passava café todos os dias. Ele achava um absurdo uma brasileira tomar café instantâneo. Até me deu uma cafeteira italiana que eu nunca usei. Mas quando morávamos juntos, eu passava café todos os dias. Sometimes, all I need is the air that I breathe and to love you. Por que será que estou pensando em ti agora? Justo agora, que eu nem te amo mais? Não, não é por causa da música. Bee Gees não faz parte da nossa trilha. Se fosse U2, se fosse Frank Sinatra, se fosse REM, se fosse aquele CD do Trainspotting... Mas não, não Bee Gees! Então, por que estou pensando em ti agora? All I need is the air that I breathe Faz 40 graus nessa cidade e o café está quente! Se eu te contasse isso, tu certamente ririas de mim. Se eu te contasse que está quente e aqui não tem praia, que está quente e eu estou tomando Nescafé, que está quente e o café está queimando minha boca. Mas eu não te conto mais nada. Parece incrível! Sempre achei que depois do fim ainda restaria alguma coisa. Só que hoje, praticamente não nos falamos. Não ligo mais no teu aniversário e raramente te escrevo. É uma indiferença... Foi isso que sobrou de nós, pra nós. All I need is the air that I breathe Só o ar que eu respiro e mais nada. Mas eu o amei. Eu o amei... muito. Achei que esse amor nunca fosse passar. Mas passou. Tantas lembranças voltando, agora que penso nele. Eu e ele: nós... Nós que já desatei. Mas então resta alguma coisa ainda. Lembranças. Tinha esquecido delas. Elas estão em mim, são parte de mim. Eu lembro. Ele lendo o New York Times, os cadernos do jornal espalhados pelo chão da sala e pela mesa do café. Ele caminhando pelo quarto enquanto fazia a barba, puxando o rosto primeiro pra direita, depois pra esquerda, e então esticando o pescoço, deixando o barbeador deslizar sobre a pele. E quando ele molhava o lábio com a língua antes de me beijar? Eu achava tanta graça daquilo! Lembranças... A francesa e o espanhol não estavam entendendo nada. Eu furiosa, dirigindo nosso carro como uma louca. Tu, achando tudo muito divertido. A francesa e o espanhol não diziam nenhuma palavra. E eu sabia, eu sabia que tu estavas interessado na francesa. Eu não podia entender isso. Ela era muito vulgar. Uma blusa de oncinha, um salto altíssimo e uma saia curtíssima. E tu não conseguias nem disfarçar o interesse. Não pra mim! Eu sabia. Chegamos em casa e eu fui direto pro nosso quarto. Tu, a francesa e o espanhol ainda ficaram horas na sacada, conversando. Do quarto, ouvia algumas partes da conversa. Era como se eu não existisse. Eu tinha pena de ti. Pena! Não era nem raiva... era pena. Tu e a tua timidez não tinham qualquer chance de competir com o espanhol. O espanhol era um conquistador. E era bonito, muito bonito o espanhol. Como eu quis ter raiva de ti naquele dia! E então tu entraste no quarto. A decepção estampada no teu olho. Uma criança. O espanhol ficou com teu brinquedo... Eu sabia que acabaria assim. Tudo tão previsível. E o espanhol era teu melhor amigo. Mas o espanhol certamente não percebeu que tu gostavas da francesa. Só eu, porque te conhecia bem demais. Acho que nem mesmo a francesa sabia do teu interesse. Só eu. Eu, tua mulher. Eu, a única pessoa que preferia não saber. Teus olhos tão tristes diante de mim. "Eles estão se beijando", foi o que me disseste. E eu te peguei em meus braços. E tu me beijaste. E eu abri tua calça e peguei teu membro. E fiz tua mão deslizar pelo meu corpo. Era meio sadomasoquista aquele prazer. A minha humilhação. A tua humilhação. Me beijaste os seios. Eu chorei. Pobre amor, pobre amor, esse que morre! Abri as pernas. Por que lembrar disso agora? Já faz tanto tempo... All I need is the air that I breathe. Só o que eu preciso é desse ar que eu respiro. O ar que eu respiro. Mais nada. Mais ninguém. Referência musical: The air that I breathe, na versão do Bee Gees. |
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