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Histórias de encontros e desencontros. Segunda-feira, Março 28, 2005 Pensamentos do Tatame Sexo não é ping-pong: neste mundo em que as pessoas sequer sabem o que "consideração" quer dizer, é muito legal quando a outra pessoa se preocupa se a gente também está satisfeito. Dito isso, sexo não é ping-pong, toma-lá-dá-cá. Eu não dou. Não adianta pedir: não dou o meu gozo só por reciprocidade. Tenhamos consideração uns pelos outros, incluindo o respeito pelos diferentes ritmos do prazer de cada um. E evitemos sempre qualquer atitude que possa levar ao stress, porque daí à broxura é um pulinho.
O absoluto e o relativo: poucos assuntos são mais batidos do que o tamanho do pênis. Sem dúvida, há um tamanho absoluto: aquele que é medido em centímetros. Mais importante, porém, é o tamanho do pinto em relação ao tamanho da bunda e à espessura das coxas da parceira, porque isso é o que determina as posições que funcionam e as que não dão pau, quero dizer, pé, pé! Dominação: o Marquês de Sade, por praticamente não ser lido hoje em dia, é totalmente mal apresentado, logo mal visto. O Marquês, é verdade, escreveu pornografia de um quilate tal que eu não conheço outro autor que se lhe possa comparar, mas também escreveu páginas inteligentes para atacar a Igreja e por trás das suas baixarias há uma filosofia do prazer baseada na dominação do parceiro. A violência é eventual e acessória nos textos do Marquês, enquanto a dominação é onipresente e central. Dominar a parceira, portanto, não envolve necessariamente violência nem humilhação. Trata-se antes de estar no comando da foda, de ditar o ritmo e a alternância das posições, o momento do orgasmo. Tenho dificuldade de imaginar sexo sem dominação. Não sei o que eu estaria fazendo no tatame. Acho que sem dominação não seria sexo; quem sabe, seria fazer amor, mas isso é tão raro, meudeus, tão raro... A curva de aprendizagem: aproveita-se muito pouco do que se aprendeu no passado com uma nova parceira -- é preciso refazer, reviver a curva de aprendizagem. Eu acho isso ótimo! Nada como descobrir um corpo: seus cheiros, seus pontos sensíveis, seus ritmos. E não seria nada difícil, se a gente só tivesse uma parceira de cada vez. Quando a gente tem duas novas parceiras ao mesmo tempo, então, o cérebro, que já não é afeito a pensar no tatame, chega a dar "tilt" tentando lembrar: "com esta é assim ou assado?" É por essas e por outras que é uma lástima que o título deste blog ainda soe engraçadinho (somos cães que ladram, mas não mordem!), que o Rodrigo se queixe com razão do fiasco da "sexual revolution" que a Macy Gray canta, que a gente não ande de fato fazendo ménages por aí. Vamos parar com tanta hipocrisia: vamos admitir logo que somos todos promíscuos, que a monogamia é uma idéia que deu errado, que o casamento é uma instituição falida, e vamos nos divertir no tatame! Quarta-feira, Março 23, 2005 Seqüência Este post, malgrado meu, não deixa de ser uma seqüência do anterior. Comecemos, portanto, com uma tentativa de definição, que deveria ser feita pelo Rodrigo, que cunhou o termo, mas como ele anda arisco a este blog... Sincericídio: ocasionalmente, pode ser uma coisa espontânea, ceder a um impulso irresistível; a gente esquece bons conselhos de versos famosos, tais como: "se quieres ser feliz como me dices, no analices, muchacho, no analices", do Joaquín Bartrina, gravados até pela Elis e "Quero a verdade Ou quero amar?", de "Prestes a Voar", Marina Lima/Antonio Cícero, gravados pela própria Marina, e cai na asneira de dizer ou perguntar a verdade à pessoa amada. Digo "ocasionalmente" porque desconfio que um sincericídio, mais das vezes, não passa de um instrumento de sabotagem: não é um tamanco, mas funciona que é uma beleza pra emperrar a maquinaria do amor. Se alguém precisar de exemplos pra entender o conceito, basta ir ver "Closer": o filme é um sincericídio em cima do outro. Abaixo, uma alegoria:
Icharus, by Ken Perkins Não dá pra dizer que Ícaro cometeu suicídio. Por outro lado, quem em seu perfeito juízo esperaria um bom resultado de asas de penas coladas com cera? (No mito, o vôo dá errado porque ele sobe muito, aproximando-se do sol, a cera derrete e ele cai; é uma forma de dizer que a ambição humana de se aproximar dos deuses deve ser contida. Na realidade, se ele subisse muito, o frio ia dar-lhe uma fadiga muscular brutal e ele ia despencar do mesmo jeito. Isso sendo legal: na prática, nunca ia voar com aquelas asas de merda.) Da mesma forma, o sincericídio não é necessariamente um "suicídio" da relação, mas a arrogância, a pretensão de que "eu (o meu amor) posso (pode) sobreviver à verdade" só pode ser punida com a separação. Aplicando isso e mais parte do último post à minha vidinha: as últimas 48 horas foram de uma ambigüidade levíssima: simplesmente tinha de decidir com quem vou passar a Páscoa: com a daqui ou com a de lá? Tipo de problema bom de ter... A solução que planejei foi um sincericídio: ia contar pra daqui que a de lá existe e esperar pra ver a reação. Um sincericídio com atenuantes que não vou me dar ao trabalho de citar. Teria sido o sincericídio sabotador dentro da lógica de "vamos transferir o problema". (Isso é o que gritava um coroa com quem eu jogava paddle, sempre que a bola chegava ao lado dele da quadra.) Eu teria passado informação e, por tabela, deixado nas mãos dela a decisão: se ela tirasse o time de campo, Páscoa com a de lá. A coisa toda acabou em futuro do pretérito, porque eu planejei o sincericídio, mas não executei. A menina veio tomar uns mates no apê e já chegou numa tristeza... Nada a ver comigo, outros problemas, mas uma tristeza... Lagriminhas perdidas... Aí não deu, não tive estômago pra sincericídio nenhum, deixa a menina viver de ilusão, que é bão! Sábado, Março 12, 2005 Pensamentos Sabotagem: Thaizita e eu temos o mau hábito de sabotar nossas relações com pessoas que nos ameaçam, i. e., que ameaçam nos machucar muito se nos deixarem, porque gostamos muito delas. Mal comparando, é a lógica do Tenório Cavalcanti, o Homem-da-Capa-Preta: "antes que tu me jante, eu te almoço!" A diferença é que a gente não almoça (a gente não dá o pezão antes de levá-lo), a gente sabota a relação até o outro dizer que "assim não dá mais", porque então é justa causa: se o outro não tem coragem de encerrar, a gente se encarrega de fazer o serviço sujo. Aí nego fica uns dias vendo no espelho aquela cara de cusco sem dono, de guaipeca perdido, até que passa. Ambigüidade: chamo assim aquela situação em que ficamos genuinamente divididos, com dois corações, e sofremos por isso. O cão abandonado te olha do espelho antes do e durante o affair, se houver affair. Conheço dois casos em que há ambigüidade: * a velha dúvida adolescente: "será que vale a pena arriscar esta bela amizade por uma bimba que sabe lá se será bela?" (Neste caso, eu acho que sempre vale!) * o triângulo em potencial: gosto de Fulana e sou amigo de Cicrano; Fulana gosta de mim e de Cicrano, mas, em se tratando de uma mulher, é impossível saber quem ela prefere ou por quê. Além disso, dado o que conheço de mim, de Fulana e de Cicrano, eu acho que F. e C. formariam um casal mais feliz do que F. e eu. Entra aí a ambigüidade: obedeço ao meu desejo por F. ou sigo meu bom senso e deixo que F. e C. gravitem naturalmente um para o outro, tirando o meu time de campo? Conflito moral: diferencia-se da ambigüidade por não haver dúvida, mas, ainda assim, trazer um sentimento de culpa. Eu sei a priori que Fulana e eu nunca seremos um casal e reconheço que existe o risco de ela se machucar na brincadeira, e no entanto persisto na decisão de ter um affair com ela. Ajo (que palavra horrível!) pensando somente em mim, mas este declarado e descarado egoísmo não me impede de sofrer dores morais. Uso o livre-arbítrio que me deu o demiurgo e pago o preço na moeda da culpa. Neste caso, o cachorro que vejo no espelho é aquele que apanhou de seu dono, mas não sabe por qual de suas transgressões foi punido. Ele tem as orelhas murchas, o rabo entre as patas, um olhar desorientado e a memória da delícia que foi roer aquela alpargata e mijar no carpete contra a perna da mesa de centro, sobre a qual alinha-se a família de elefantes. ![]() |
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