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Histórias de encontros e desencontros. Quinta-feira, Abril 21, 2005 Flak jacket O Cara sabia que a Mina vinha irada, ainda que não soubesse por quê. Achou que a presença da Amiga desarmaria os ânimos, então chamou-a e foi para o restaurante sem sua flak jacket, que até já havia deixado separada, nas costas de uma cadeira. A Amiga sabia por que a Mina estava puta com o Cara e contou pra ele, que ficou frio. As coisas foram bem, até que o Cara e a Mina ficaram sozinhos. Foi aí que os 88 abriram fogo. Para sua própria surpresa, o Cara não se arrependeu nem de ter deixado a flak jacket em casa, nem de ter se exposto ao fogo da Mina: descobriu-se incrivelmente tranqüilo, enquanto sua Fortaleza Voadora desmantelava-se ao seu redor, pedaços de ego zunindo por todos os lados. Sobrevivente, sobreviveu, mas é claro que ainda sangra onde o shrapnel o atingiu.
US M43 Flak jacket com acessórios. Pensamento a dois da noite: o caminho do zen-budismo é cheio de obstáculos (disse a Mina): [pois é,] às vezes, vem uma manada de elefantes em disparada na contramão, e o pior é que eles vêm fugindo de um tsunami! (disse o Cara) Segunda-feira, Abril 18, 2005 Encontros e Desencontros: Flashes de dias bons Terça-feira, começo da noite: chegam à Terra dos Ventos sem Nome Thaizita e Filip, o Belga, a quem eu não via desde abril do ano passado, quando nos conhecemos em Lisboa. Eles vêm com o projeto de seguirem daqui a Montevidéu na manhã seguinte para tentarem comprar ingressos para o Brasil X Uruguai. Eu já estou com a minha ida planejada há mais tempo, tudo acertado. Considerando o tempo curto que têm e as distâncias longas, é um programa de índio, mas são as férias da Thaís. De qualquer forma, pra mim já valeu: reencontro: Filip, o Belga. Terça-feira, jantar: vamos ao Larus. O Belga põe-se a matar caipirinhas de vodka com um entusiasmo e num ritmo que me surpreendem. Loreta, que parece a encarnação da Jessica Rabbit, exceto pelo cabelo negro, é quem está nos atendendo e o Belga não demora a começar a chamá-la de "Lorretinha". Demos boas risadas. Sendo eu um otimista pra essas coisas, acho que o Belga, inadvertida e inocentemente, pode ter facilitado a minha vida, porque agora já tenho assunto pra conversar com a menina -- quem sabe ainda realizo minha fantasia de possuir Jessica Rabbit? Enfim, pensando positivo: encontro futuro facilitado. Terça-feira, quase às 22h: pego carona com Thaís para o ônibus que me levará, mais 39 outros boludos, a Montevidéu. Eu já ia num certo mau humor, por conta da companhia (um ônibus cheio de bola!) e por estar com medo de beber pouco e não dormir ou beber demais e fazer merda e passar mal no dia seguinte, tendo de me recuperar a tempo para assistir ao jogo. Entre os boludos esperando para embarcar, tenho a grata surpresa de encontrar o Pato e o Dariano. Tá safo! Já não vou mais no meio de um monte de desconhecidos. Bons encontros. Quarta-feira, quase às 9h: depois de uma noite bem dormida (considerando-se as circunstâncias), acordo já em Montevidéu. Não lembro quando foi a última vez que acertei tão perfeitamente o teor etílico da Criatura. Descemos do ônibus para a calçada da Ave. 18 de Julio. Faz frio, temos sono, caras de zumbis que acabaram de se desenterrar e não temos um puto peso no bolso. De repente, no meio deste macharedo abominável, surge uma loirinha linda, como uma daquelas flores que rebentam o concreto e brotam no meio da pista. Ana anda pela cidade com um rádio digital e um telefone celular, fazendo matérias que entram ao vivo para sua emissora, direto das calçadas do coração da capital uruguaia. Por razões que nunca vou entender, Ana mistura-se aos brasileiros e nos leva à única casa de câmbio aberta àquela hora, mostra-nos onde tomar café e indica hotéis para aqueles que querem dividir um quarto para la siesta e um banho. O encontro com Ana foi bonito, pela beleza da moça e por seu gesto gentil, ainda mais considerando que naquela noite deixaríamos de ser hermanos para sermos inimigos de morte no estádio.
Ana, foto minha. Quarta-feira, 11:30: na calçada do Mercado del Puerto, uma mesa à sombra, Patricias geladas e o dia simplesmente lindo. Sentamos à mesa: Dariano, o Quieto, o Magrão, o Veterinário e eu. Dariano eu já conhecia: é aluno do mestrado, orientado pelo Mano, que se formou comigo. Os outros são novidade pra mim. Aos poucos, vamos nos conhecendo: o Quieto, que eu só conhecia de vista do Larus, é arquiteto. O Magrão é orientado do Sampaio, a quem eu conheço há mais tempo do que me lembro. E o Veterinário é um cara com uma filosofia de vida muito parecida com a minha -- poderíamos ser amigos. Nesta boa companhia, terminamos com as Patricias e damos um susto nas Pilsen, comendo uma boa quantidade de carne. Quarta-feira, 14:30: entramos no Mercado, onde está a maioria do nosso grupo mais outros grupos de brasileiros que vieram ver o jogo. Juntos, estão infernizando o Branco, os uruguaios em geral e a Segunda Ana e seu colega em particular. O Branco, que foi ponta-esquerda da Seleção e hoje é coordenador das categorias de base da CBF, está com uma cara de buldogue com hemorróidas, porque enfiam-lhe uma caneta e uma camiseta canarinho debaixo do nariz toda vez que ele pensa que vai conseguir levar o garfo à boca. Eu já teria parado de dar autógrafos e começado a dar sopapos há horas, se fosse a minha comida esfriando no prato. Sei lá, celebridade tem outra finesse... Os uruguaios têm de agüentar surtos de cantoria (Ô, Ô, ooÔ, Brasil!), mas vão digerindo bem a coisa, empurrando com medio y medio e vinho. A Segunda Ana também está administrando bem a coisa, considerando o tamanho do seu pepino: está sendo disputada por uma mesa de papareias (chamam-se assim os habitantes da Terra dos Ventos sem Nome) bêbados e outra, vizinha, de nossos vizinhos pelotenses (chamam-se assim os que têm a tendência de dar o cu pros papareias). Quase há troca de tapas, a gritos de "A Ana é nossa! A Ana é nossa!". Para chamá-la, a mesa inteira começa a batucar e a cantar, como no comercial daquele mijo que vendem como se fosse cerveja: "Vem, Ana, vem! Vem, Ana, vem!". O surpreendente é que, como eu já disse, ela está na boa com esta bagunça. Quem realmente se deu mal foi o colega dela, que tentou entregar umas garrafas de cerveja na mesa dos papareias: não deixaram que ele se aproximasse e correram-no a gritos de "Maricón! Maricón!". O homem fechou a cara e pensou em reagir, mas percebeu a tempo que contra aquela massa alcoolizada ele não teria a mínima chance, nem no grito nem no braço, e deu volta, torcendo o avental numa raiva impotente, que é o pior tipo de raiva. Daí pra frente, a Segunda Ana tem o monopólio das mesas. Especulamos que o valor do passe dela deve ter aumentado muito no Mercado del Puerto. Infelizmente, a luz dentro do mercado não dava pra minha câmera, então não tenho fotos nem da farra nem desta Segunda Ana. Mas foi outro encontro! Quarta-feira, a todas essas: um cara que eu mal lembrava que existe me reconhece e vem falar comigo. Ele namorou uma prima minha há uns trinta anos. Conversamos um pouco e ele fica surpreso ao ver que eu lembro, entre outras coisas, do carro que ele tinha na época. Comenta: "memória de criança é uma coisa fantástica!" Eu fico pensando: "entre tantas memórias = sinapses que o álcool já me matou, por que não estas?" Enfim: um reencontro e uma rememoração dos menos esperados. Quarta-feira, 16h: Thaís e eu tínhamos combinado um encontro no mausoléu do Artigas entre às 16 e às 17h. Só que eu tenho uma idéia que acho que vai funcionar: vou a um locutório e envio, pela Internet, uma mensagem para o celular dela, que é GSM e deveria recebê-la, mesmo no Uruguai. Fico então esperando por eles no Shopping Punta Carretas, que está ao lado do Sheraton onde a Seleção se hospeda, tomando mais umas Pilsen tiradas, o que é quase um chopp. Thaís e o Belga não receberam a mensagem (grande Claro! -- grande bosta!) e obviamente não apareceram. Desencontro. Quarta-feira, sei lá que horas: depois de nos desencontrarmos da Seleção, vamos para o Centenário. Tudo muito tranqüilo. Sinto-me em dívida para com os uruguaios, que nos trataram com tanta calma e cortesia. Ao começar a descer a escada da arquibancada, o melhor encontro da excursão toda: Thaís e o Belga! Grande Thaís! O resto é História: dominamos o primeiro tempo todo, mas não conseguimos marcar sem Robinho no time. Zagalo e Parreira parecem ter uma preferência masoquista por viverem em desencontro com a torcida da Seleção, que é o Brasil. Vox populi, vox Dei. Este par de asnos nunca ouviu falar nisso... Não posso falar em nome de toda a torcida brasileira, mas no nosso grupo não há dúvidas: Ronaldinho Gaúcho: grande encontro! Robinho: encontro! Ronaldo Nazário: desencontro! Voltamos todos rezando pelo pronto restabelecimento do Adriano. O Nazário que vá aprender a trocar fraldas sujas!
O que sobrou do meu ingresso. Quinta-feira, quase 9h: o ônibus deixa-me na porta do apê, na Terra dos Ventos sem Nome. Sou uma sombra fétida. Tenho tornozelos de elefante. Tomo um banho e tiro o primeiro sono. A faxineira, que não tem nada de fascinante como a do Nei, chega e leva um cartão amarelo: hoje, não! Faz só o essencial e te manda. Esquece os quartos, até porque Thaís e o Belga vão pernoitar aqui de novo. Segundo sono. Quinta-feira, aí pelas 23h: Thaís liga e diz que está em POA! Guria maluca! Bateu direto! Passou reto! Sem as parcerias com que contava, desisto de ir à Quinta Dupla do Larus e volto pra cama. Nada como duas noites seguidas num ônibus pro cara amar o seu tatame! Sexta-feira, 12:30: chego à piscina, pulo na água, ponho a touca e ela entra. Vem sorrindo, com aqueles olhos que me procuram tanto... Falamos rapidamente, ponho os óculos e saio da borda, dando as primeiras braçadas do meu aquecimento. De súbito, há paz no meu mundo. Sábado, Abril 16, 2005 "Oh no, not me, I never lost control." (The man who sold the world, David Bowie) "Seja como for! Evoluir é cumprir um destino (...) Quando se deseja alcançar de um dia para o outro o incomparável, o excepcional, digno da magia dos contos de fada, para onde se vai?" (Morte em Veneza, Thomas Mann)
Quadro de Pollock no Metropolitan Museum of Art. Foto de John Rosenthal - Nosso encontro está de pé? Ela tinha sido apaixonada por ele, mas ela jamais tinha sido apaixonado por ele, o homem com quem falava ao telefone. Ela tinha se apaixonado por outro, quem ele foi ou parecia ser. Ela já não sabia dizer até que ponto suas fantasias influenciaram na percepção que teve dele nos primeiros encontros. Mas agora, o homem por quem ela se apaixonara não ocupava mais aquele corpo. No lugar dele, um estranho, alguém que ela poderia até desprezar, não tivesse ele aquele rosto e aquela voz tão familiar. - Claro! O encontro havia sido combinado no dia anterior. Não era um encontro amoroso. Era um encontro sexual. O leitor se perguntará, com razão, porque ela havia concordado com esse encontro. Pelo sexo, seria a resposta óbvia. Só que ela não era óbvia. Não, não era pelo sexo. Ela não precisava dele pra isso. Há muito mantinha um relacionamento com um homem casado. Era tudo muito prático. Quando seu coração e sua cama estavam vagos, ela recorria a esse homem. Iam pra um motel, tiravam a roupa enquanto falavam sobre suas rotinas, iam pra cama, começavam a se beijar e as carícias evoluíam até ela ter um orgasmo e ele ejacular. Ele, então, a abraçava por alguns minutos, como se fosse uma recompensa pelo prazer que ela lhe proporcionara. Logo se levantavam, vestiam suas roupas e voltavam a conversar banalidades. Então, por que ela ia a esse encontro? - A que horas você sai? - Era justamente o que eu ia te perguntar!, ela respondeu sem conter o riso. - Saio às seis e depois tenho espanhol, mas acho que não vou, né? Afinal, tenho coisa muito melhor pra fazer. - Que bom! Acho que teremos uma noite interessante. Eu trouxe velas, incenso, óleos, sais para banho e, claro, uma garrafa de champanha. Silêncio. Ela ficou esperando que ele dissesse alguma coisa, imaginando o que ele estaria pensando naqueles segundos em que nada foi dito. - Bah... Não tinha pensado em passar a noite contigo. Às dez eu tenho o aniversário de um amigo. Não posso faltar. O que eu faço? Ele perguntava a ela o que fazer! Realmente, aquele não era o homem por quem ela tinha se apaixonado. Por que ela ia a esse encontro?, o leitor talvez ainda se pergunte, como eu também me pergunto, como acho que até ela se perguntou nessa hora. - Eu preciso ir...., ele insistiu. - Tu achas que eu devo fazer algum comentário? - Não. Mas pode me xingar se quiser. Ela não disse nada. - Então, que horas você acha melhor nos encontrarmos? A insensibilidade dele é algo incrível, ela pensou. Porque ele parecia tão tímido quando se conheceram, porque ela tinha passado uma tarde incrível com ele no parque, porque ele gostava de crianças e de natureza, porque ele se mostrou sensível a ponto de captar tudo o que ela pensava e sentia, porque ele foi intenso, ela não tinha se preparado pra vê-lo transformado em outro homem. Não tinha raiva dele. O desprezo que a invadia não era por ele, era por ela. Se sentia estúpida por ter se apaixonado. Tinha vontade de rir de si mesma. - Por que não me falaste antes sobre o aniversário? - Pois é..., ele murmurou um pouco sem jeito e certamente sem resposta. - Quer dizer que agora nosso encontro é com hora marcada? Sexo das seis às dez e tchau, boa viagem, cada um pro seu lado. Tentador, hein! Ela não queria ser irônica, não com ele, mas era inevitável. Situações como essa sempre despertavam seu lado mais sarcástico. - Você está vendo da pior forma... - E tem uma forma melhor? - Sim - Qual? - ih, acho melhor deixar isso de lado... Desculpa se te ofendo desse jeito. - Não estou ofendida. Estou até rindo, não percebes? - No início te convidei pra almoçar, lembra? Justamente porque tinha esse aniversário à noite e queria arranjar um tempo para te ver. Então você sugeriu a janta e eu achei melhor. - Sim, eu sugeri a janta porque achei que à noite teríamos mais tempo. - Por que as mulheres nunca falam o que querem dizer? - Eu sempre falo. O que tu achas que eu quero dizer e não disse? - Agora, nada. Mas antes... - O que? - Eu te disse que não me sentia confortável com a idéia de um relacionamento estável. Ele disse. Esse foi o primeiro golpe em sua paixão. Não que ela quisesse um relacionamento estável. Ela simplesmente não tinha pensado nisso. Estava acostumada a viver seus sentimentos, e quem vive sentimentos não pensa em tempo, não se preocupa com definições. O que a perturbou na frase dele foi exatamente isso, a tentativa de rotular um sentimento que ela preferia deixar livre. Pra ela, quem, como ele, se sente angustiado com sentimentos livres é o tipo de pessoa que vê seus relacionamentos como uma prisão. Ela sempre foi avessa a isso. Lembrou com carinho de um colega com quem teve um caso rápido e indolor. Um dia, sentados no bar da faculdade, ele tirou o rótulo de uma garrafa de cerveja, escreveu algo no verso e deu pra ela. "Nunca aceite rótulos", ela leu. E ela nunca aceitou, mas sempre se sentiu solitária por causa disso. Solidão de quem pára diante do abstrato. Sempre se sentiu incompreendida pela família, pelos amigos e, o que é pior, pelos homens que amou. A liberdade que ela dava e queria ter era interpretada como desinteresse, como frieza ou como libertinagem. Ao menos ele tinha sido sincero, e ela apreciou isso nele. - E teve o dia em que eu te contei que antes de começarmos a sair eu estava interessado em outra mulher. Te contei que ela tinha me dado um fora, mas que anda atrás de mim novamente. - Apenas uma ressalva. Tu não me contaste, tu me pediste um conselho, tu me perguntaste o que fazer. O segundo golpe. Ele tinha sido cruel ao pedir conselho pra ela. E nesse mesmo dia, o coração dela ainda encolhido, tentando se proteger, ele mandou uma mensagem dizendo que estava ouvindo um CD e pensando nela. Se ele gosta de outra, porque não a deixa quieta? Que homem é esse que a confunde com sinais antagônicos? Definitivamente, não o homem por quem se apaixonou. Que estranho é esse que brinca com seus sentimentos? Nesse dia ela soube que se não quisesse sofrer mais, teria que desconstruir sua paixão. E logo! - Você me disse, então, que poderíamos continuar saindo, transando sem nenhum problema. Aí, quando eu te convido para isso, você se sente ofendida. Ele tinha razão, ela não tinha dito tudo. Ela não tinha dito que aceitava aquela situação porque precisava se convencer de que não voltaria a encontrar o homem interessado dos primeiros encontros. Se ele a queria como um objeto, então ela seria um objeto. Ela nunca se apaixonou por homens que a trataram com indiferença. Ser um objeto era parte da desconstrução. Ele tinha razão, ela estava magoada. E se ela estava magoada é porque havia, ainda, um resquício de paixão. O leitor não pense que é fácil desconstruir uma paixão. Exige força de vontade, exige sacrifício. - Eu não me senti ofendida, tanto que aceitei o convite. Eu só fiquei chateada por tu não teres me dito que era um convite com hora marcada. Talvez tu não percebas a diferença, mas eu percebo. - Tá bom, eu sei disso... Desculpa. Eu queria muito te encontrar hoje, mas se você quiser, podemos sair outro dia, com mais tempo. O que acha? - Não sei, preciso pensar. Vou tomar um café e já te ligo... Mas ela não precisava pensar, ela já tinha uma resposta. Não tenha dúvidas, leitor: ela irá a esse encontro com hora marcada. Ela precisa se humilhar. Ela precisa exterminar o que ainda resta dessa paixão. Entre seis e dez. Domingo, Abril 10, 2005 "Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade Viram copos viram mundos, mas o que foi nunca mais será" (Desgarrados, Mário Barbará) "Cold, cold water surrounds me now and all I got is your help" (Cold Water, Damien Rice)
Socorro! Foi a mensagem que eu enviei e ele respondeu na hora. Eu estava me sentindo sozinha. Eu estava sentindo uma tristeza profunda de mim, daquelas que só Fernando Pessoa traduz. Por algum motivo, foi nele que eu pensei, foi pra ele o meu pedido de socorro. Ele, que me teve e não me amou. Ele, que me deixou pra ficar com outra. Ele, que eu não via há muitos meses. Foi pra ele a mensagem. E ele respondeu na hora. Ele. ... me puxou pros seus braços quando abri a porta. Não perguntou nada, não disse nada. Me puxou pros seus braços e pressionou minha cabeça contra o seu peito. Senti sua mão repousando sobre meu cabelo. Aquela mão forte, que muitas vezes fez meu corpo arrepiar. - Pode chorar. Eu estou aqui. Chorei. E o abracei com mais força, como se pudesse morrer naquele abraço, como se pudesse deixar de ser eu, deixar de sofrer. Me abandonei em seus braços com um sentir tão intenso que era um quase não-sentir. O coração dele batia tranqüilo. Tum-tum. Tum-tum. O fluxo sangüíneo passando através dos vasos coronários. Tum-tum. Tum-tum. Fechei os olhos. Tum-tum. Tum-tum. Me senti uma hemácea naquele fluxo. Tum-tum. Tum-tum. Coração. Como preencher esse órgão muscular oco que se localiza no meio do peito, sob o osso esterno, ligeiramente deslocado pra esquerda? Tum-tum. Tum-tum. Foi o que ouvi como resposta. Lembrei de Clarice Lispector, de Ulisses e de Lóri. "Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível." As lágrimas secaram. A dor foi passando. A angústia foi passando. Ainda estávamos na porta do apartamento. Consegui respirar. Alívio! Se ele fosse Ulisses, seria o momento certo pra dizer: "Se você chegar a ser minha, do modo como quero, gostaria de ter um filho seu, assim mesmo, com você sem pintura no rosto e coberta de suor." Claro que ele teria que adaptar um pouco o texto. Sem pintura no rosto e coberta de lágrimas, ele me diria. Continuávamos parados na porta do meu apartamento. Como eu queria que ele fosse Ulisses. Mas ele não disse nada. Então eu falei. Eu finalmente consegui falar. - Eu vou te amar pra sempre. Vou te amar porque estás aqui. Vou te amar porque não me perguntas nada. Vou te amar pelos teus braços e pelas tuas mãos. Vou te amar pelo teu coração. Vou te amar mesmo que nunca me ames. Vou te amar pra não mais te esquecer, e não te esquecendo, também nunca mais me perder de mim. Ele me olhou e sorriu. Sorriu e foi embora. Me deixou diante da porta agora vazia do apartamento. Era o fim perfeito pra nossa história. * referência no texto: Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Editora Rocco. Agradecimento especial à Vera Medeiros, que me deu esse livro. |
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