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Histórias de encontros e desencontros.


Quarta-feira, Dezembro 14, 2005
 
O alfabeto segundo Ménage à Trois (e assim falou Zaratrusta?)



Trim trim (o telefone)
Trim trim (ela já vai atender)
Trim
- Alô.
- Oi. Estou ligando pra te avisar que hoje, quando ele for pro futebol, ele não irá pro futebol. Quando ele for pro futebol, ele irá pro motel A2. Ele tem outra. Ele te engana.
- Quem tá falando?
- Não interessa. Uma amiga.
Tuc. (o som seco do telefone sendo desligado)
Por uns segundos, ela fica com o telefone suspenso. Ninguém mais do outro lado da linha e ela sem conseguir desligar.
O que fazer? Revirar todas as coisas dele procurando pistas desse affair extra-conjugal? Verificar todos os bolsos, a carteira, as gavetas? Abrir o computador e olhar todos os arquivos dele, todos os e-mails? Esperar que ele entre no banho e investigar as chamadas do celular? Conferir os extratos do cartão de crédito? Segui-lo quando ele sair de casa? Fazer plantão na porta do motel A2? O que fazer?
Se ela descobrir que tudo o que vive com ele é uma mentira, uma grande mentira, será o fim. Se ela descobrir que ele a engana, será o fim. Mas eles são tão felizes juntos. Será que é importante saber? E se quem telefonou estiver apenas querendo envenená-la com doses de dúvida? E se ela revirar tudo e não encontrar nada? E se ela o seguir e ele for mesmo pro futebol? Como conviver com a vergonha de ter desconfiado dele?
- Tô indo pro jogo. (ele já fardado e com a sacola do futebol na mão)
O que fazer?
- Jogo? Tem certeza?
- Como assim? Eu sempre jogo futebol às terças... O que te deu?
O que fazer?
- Ah, estava perdida no tempo, não me dei conta que hoje é terça. Parece quarta. Tu não achas que parece quarta?
Ele ri. Ele a beija.
O que fazer?
Ela fica sentada. Pega um livro. Se ele a engana, um dia, ao acaso, sem esforço, um dia ela saberá. A verdade sempre aparece. Enquanto isso, melhor esquecer o telefonema. Ele foi pro futebol. Ele sempre joga futebol às terças. As pessoas pensam que ciúme é prova de amor. Que nada! Sentir ciúme é fácil. Ciúme todo mundo sente. Difícil mesmo é acreditar. Difícil mesmo é confiar. Confiança, e não ciúme. Confiança é prova de amor. Ela ama.


A contribuição tardia do Cabiludo

Aqui me ponho a imitar, e me sai que C pode ser de carranca ou de carinho. Carranca abre caminho. Toda esta comunicação não-verbal que serve de advertência, que diz sem dizer que há uma linha que não se deve cruzar. Temos uma relação, mas ainda somos dois indivíduos e o meu espaço ninguém tasca! O olhar fulminante, nossa herança fantástica do basilisco, ou o gesto curto, decidido, da mão à altura da cintura. Pequenas violências que evitam as grandes e que, portanto, preservam a relação.

Abre-se então, entre estes espaços preservados, o campo para o carinho mútuo. Cafunés, aqueles apelidos tontos, mais das vezes zoológicos, que não evitam os amantes, o sexo gostoso e um dia, quem sabe, a glória de fazer amor de verdade.



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